ARTIGO
Segunda-feira, 03 de Dezembro de 2012, 21h:19
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LORENZO FALCÃO
Futebol e ditadura
Um dos meus programas preferidos de televisão é o Bate Bola, da ESPN. Descontraído, engraçado e sério. Seus protagonistas falam de tudo, além de futebol. O apresentador, João Canalha, manda bem. Quase todos os dias a televisão aqui em casa dá uma passadinha pelo programa. Mas não é especificamente sobre o Bate Bola a conversa. "Memórias do Chumbo - o futebol nos tempos do Condor" é um programa em quatro episódios, que vai ao ar na ESPN entre 18 e 21 de dezembro. Enfoca a relação futebol e ditadura no Brasil, no Chile, Argentina e Uruguai. Tive a oportunidade de assistir a chamadas de alguns desses episódios e me pareceu bem interessante. A reportagem, o roteiro e a produção são de Lúcio de Castro, jornalista bastante premiado, que participa do Bate Bola diariamente. Na ficha técnica dessa produção estão Luís Ribeiro e Rosemberg Farias (imagens), Fábio Calamari e Alê Vallim (edição), Luís Alberto Volpe (narração), Stela Spironelli (arte) e Rodrigo Takigawa (chamadas). Assisti à chamada do programa sobre o Chile. Nesse episódio, um fato muito curioso. Foi dentro de um estádio de futebol a primeira manifestação maciçamente popular, contra o Pinochet, ditador cruel daquele país. Duas equipes se enfrentavam, e numa delas tinha um jogador que era xará do ditador. Ele, esse Pinochet do futebol, estava num dia muito infeliz, jogando mal demais. E eis que o estádio inteiro se põe a gritar em coro: "Fora, Pinochet". Em outro episódio (a memória falhou), não me lembro se na Argentina ou no Uruguai, a ditadura rolava solta e truculenta, enquanto os jogadores da seleção sabiam (e não gostavam) que eram usados com finalidades políticas. Foram-lhes oferecidas regalias à vontade e eles aceitaram. E os craques se saíram campeões num disputado certame. Os militares se sentiram os maiorais. Só que na hora de saudar a torcida que enchia o estádio, logo após o jogo terminado, bem na volta olímpica, eis que os atletas, num gesto de rebeldia e combate ao situacionismo ridículo, decidem dar a volta olímpica em sentido contrário ao habitual. Não cheguei a ver a chamada do programa gravado sobre o Brasil. Sabemos todos, porém, que nosso governo militar usou e abusou das benesses da Copa de 1970, quando o Brasil foi tricampeão no México. De relance, cheguei a ver a imagem do Afonsinho, aquele craque barbudo e rebelde. Coisa do tempo dos 'afonsinhos', como se diz, ou se dizia. Mas creio que posturas políticas democráticas e conscientes ainda são raridades no meio futebolístico, entre os atletas. Saudades do doutor Sócrates. E um afonsinho, assim como uma andorinha, na solidão, não faz um verão. LORENZO FALCÃO é editor do DC Ilustrado e escreve neste espaço às terças-feiras www.tyrannusmelancholicus.com.br