Esta época do ano trás muitas alegrias a uns e um cem número de lembranças tristes a outros. Para mim, trás as duas. Procuro dissociar as boas das más. Fica difícil fazer isto, porém as lembranças que tenho da minha infância e da adolescência se sobrepõem àquelas que macularam meu coração com a ausência de quem gostaria muito que estivesse ao meu lado. Indubitavelmente, o primeiro nome da minha lista de presentes para o Papai Noel era uma bola. Na noite de 24 de dezembro lá estava ela, ao pé da árvore de natal, que minha mãe com muito carinho e amor preparava em cima do galho que recolhíamos nas matas que cercavam nossa cidade, já que ainda não existiam as industrializadas de hoje. Ao amanhecer do dia 25, estava eu, junto com meus amigos, reunido no Bosque, hoje Praça Santos Dumont, com a bola novinha e os dedos do pé (jogávamos descalços), impregnados de tarumã, uma das frutas desta época. De longe sentíamos o odor que se exalava delas. A camisa e short ficavam pretos, e a bronca da lavadeira era certa. Após o futebol ninguém ia para casa sem chupar uma manga. Uma das mangueiras preferidas ficava no quintal de um ilustre médico da cidade. Não só mangas deliciosas, como cajus que impressionavam a todos que os saboreassem. O único problema era que nunca tivemos autorização dele para adentrar ao seu quintal. Desafiávamos um enorme cachorro que fazia a guarda desse pomar e talvez isto tenha contribuído de maneira decisiva para que as mangas e os cajus fossem considerados pelos garotos como as frutas mais deliciosas da cidade. Nunca ninguém levou uma mordida do cão! Havia nesse pomar várias qualidades de mangas, de cajus, de laranjas e uma pitombeira fantástica. Os cajueiros com frutas amarelas e vermelhas deixavam-nos atordoados. Lembro-me do meu saudoso amigo Silo Corrêa, com um belíssimo caju na mão direita e uma manga rosa na esquerda. Ai de quem ousasse tirar alguma delas de suas mãos. Parecia um pit bull tomando conta do osso! Ainda conseguíamos levar algumas frutas para casa. Lá minha mãe fazia do caju uma maravilhosa cajuada e da manga um delicioso sorvete (só perdendo para o do Sinfrônio, este, imbatível). Do caju, após retirar seu suco, as frutas iam para um enorme tacho de cobre e se transformavam em um dos doces que é a cara de Cuiabá. A cidade nesta época encontra-se envolta por outra fragrância tipicamente da nossa região: o pequi! As que chegam ao mercado em novembro, geralmente quem vem de outro estado, são frutas arrancadas do pé. Aprendi desde criança que bocaiúva e pequi a gente apanha no chão, só assim elas se encontram próprias para o consumo. Agora em dezembro começam a aparecer os pequis cuiabanos, e em fins de janeiro, descem os da Chapada de Guimarães. Nos quatro cantos da cidade a gente sente a fragrância dessas frutas. Fica Cuiabá, nesta época do ano, mais bonita, mais festiva e mais cheirosa, mesmo como neste que as chuvas têm deixado muito a desejar. O cuiabano contente com seu quintal repleto dessas maravilhas adorava oferecer àqueles que não as tinham. Deus me proporcionou esta infância, para que hoje pudesse ter saudades das coisas boas vividas nesta querida Cuiabá! Eduardo Póvoas é cuiabano
[email protected]