ARTIGO
Quarta-feira, 15 de Julho de 2015, 20h:34
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ROBERTO B. DA SILVA SÁ
Foice e martelo ao papa
Poucas vezes vi um governante apresentar-se tão sabiamente diante de um papa como o boliviano Evo Morales. Se aqui coubessem aqueles ícones de aplausos, próprios do Facebook, eu encheria esta página só de aplausos. A inteligência na política me fascina. Afinal, do que estou falando? Da estupefação provocada, semana passada, pelo presente que Evo deu ao papa mais pop dos pops papas já existentes na carcomida corte papal. Cá para nós, é bem pop andar de transporte público no caso em pauta, de metrô em qualquer cidade do mundo. E Jorge, tornado Francisco na tentativa de salvação da Igreja, sempre mergulhado em enormes problemas, fazia isso com a mesma naturalidade de outros tantos trabalhadores de Buenos Aires. Mas que presente aquele descendente de indígena ofereceu ao papa que causou tanto rebuliço na mídia, agente do sistema capitalista? Uma réplica de um belíssimo crucifixo entalhado pelo jesuíta Luis Espinal Camps, de origem espanhola, morto por paramilitares em janeiro de 1980, e a quem Francisco rendera homenagens na chegada à Bolívia, minutos antes. A escultura original, agora de valor incalculável, encontra-se, em paz, na sede da Cia. de Jesus, em La Paz. Sob holofotes da TV do Vaticano, antes de receber o crucifixo da discórdia, Francisco foi condecorado. Evo colocou ao redor do pescoço do papa dois colares; um deles, ornado com uma miniatura do mesmo crucifixo. Antes que o papa lhe repreendesse ou demonstrasse mais constrangimento do que já havia demonstrado ao ver o crucifixo, retirado de uma caixa por assessores da presidência, Evo foi rápido na cena. Em um microfone, dirigindo-se calmamente ao papa, diz o nome do artista: "Luiz Espinal. Ao ouvir aquele nome, o papa se modifica. Seu semblante fechado se abre levemente para o mundo. Todavia, como mandam as ordens da Igreja, era preciso recompor-se rápido e não ficar ali admirando tanto aquela raridade artística, vista como uma profanação, embora seja absoluta e humanamente sacra. Mas por que aquele crucifixo poderia ofender tanto o papa? Em tese, por nada. Mas só em tese. Afinal, naquela peça de Luiz Espinal Camps, Cristo foi pregado sobre um martelo e uma foice, signos identificadores do sistema comunista, oponente direto do sistema capitalista. Se tais instrumentos nunca tivessem sido colados simbolicamente ao comunismo, talvez nada melhor do que ambos para expressarem a máxima aproximação de Cristo com aquilo que podemos socialmente entender como povo. Detalhe: Cristo teve como pai um senhor chamado José, cuja profissão era a carpintaria. Em tal exercício, o martelo é o instrumento por excelência. Já a foice juntamente com o arado e a enxada está para as lides do campo desde sempre. Fantástico! Fantástico porque Francisco fez, justamente na Bolívia, uma nação da América do Sul predominantemente de indígenas, seu discurso mais pesado contra o sistema capitalista, ao qual chamou de ditadura sutil. Disse o papa: Digamos sem medo: queremos uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema (capitalista) já não se aguenta. Os camponeses, trabalhadores, as comunidades e os povos tampouco o aguentam. Tampouco o aguenta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia São Francisco. Além da correção acima, o papa também pediu desculpas pelos crimes da Igreja contra indígenas na região. Éh! Parece que um fantasma continua rondando a Europa e o restante do mundo, não necessariamente por suas eventuais qualidades, mas pelo esgotamento do próprio sistema vigente; e tudo já prescrito por Marx. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ doutor em jornalismo/USP; professor de literatura/UFMT