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ARTIGO
Terça-feira, 03 de Janeiro de 2012, 19h:49

ROBERTO B. DA SILVA SÁ

(E)vidências para 2012

Enquanto escrevo este artigo, ainda ouço estourar alguns fogos. Algum retardatário comemorando o novo ano? Algum sinal específico de novos “carregamentos” na parada? Não sei; o fato é que a cada novo ano há os prognósticos vindos das ciganas, mães e pais-de-santo, além de outros seres. Com ar de sabedoria, todos dizem “como será o amanhã”. De minha parte, também tenho vidências; na verdade, evidências. Por isso, ao contrário de outros (e)videntes, gostaria de estar errado e morder bem forte minha língua por conta de tudo o que vejo com nitidez. Detalhe: dispenso os búzios e as bolas de cristal. Sabendo que viradas de ano, por si, não são capazes de mudar nada na história da “humanidade brasileira”, digo que continuaremos a ter muita telenovela para ver, para ver de novo, para ver novamente, para rever... Pior: aos de base cultural pautada por fofocas da vida alheia, geralmente, vidas de “celebridades”, há – de saída – nova edição do tão velho quanto repugnante BBB. Em outra rede, “mulheres ricas” já estão empobrecendo o que já era ruim. Vejo ainda que teremos muito futebol. Aliás, creiam: nesse quesito, este ano novo com velhas práticas só perderá para 2014. Aquele ano será imbatível. Por isso, Marte, Mercúrio, Saturno, com ou sem anéis, enfim, qualquer lugar, menos a Terra, seria o melhor espaço no Espaço. Só vai dar bola na cabeça! Voltando a 2012. Todos os dias haverá pelo menos uma partida de futebol, “ao vivo”, não necessariamente “aos vivos”; não importa a divisão nem o campeonato. Quando não houver nada de novo, teremos replay, que é ver de novo “ad nauseam”. A “humanidade brasileira”, mesmo com seus defeitos de fábrica, não merecia tanto. Vejo mais. Como falei de futebol, lembrei de craques, mas não daqueles de topetes e venerados pela mídia e por empresas. Lembrei das criaturas perdidas pelos becos, esquinas, terrenos baldios, prédios abandonados, esgotos, vãos de viadutos e até em canaviais. Lembrei de Victor Hugo e de Kafka porque me lembrei dos miseráveis já metamorfoseados em “insetos sociais”; daqueles seres anônimos perdidos sob nuvens de fumaça de drogas, quase todos eles frutos do abandono dos poderes públicos; frutos da ausência de políticas públicas; frutos de uma sociedade sem ética; frutos da pior educação possível. Detalhe: esses “insetos” estão tomando conta de tudo... Pavoroso. Por falar em educação, prevejo que nada mudará em 2012, mesmo com as trocas havidas. Por cá, na base do seis por meia-dúzia, trocou-se uma Secretária de Estado por um Secretário. Ambos do mesmo Partido; aliás, bem par-ti-do, pelo menos em MT. Logo, continua a chance de atingirmos a nota zero em exames nacionais, antes de outros estados da Federação. Em âmbito nacional, mais uma troca na Educação para nada mudar: sai Haddad, entra Mercandante; ou seja, tudo como dantes na terra de Abrantes. Enfim, trocas úteis, mas apenas para o mesmo Partido, que representa a manutenção da ordem e do progresso... de banqueiros, especuladores e de outros segmentos da elite. Esse mesmo Partido continuará sob o disfarce de partido de trabalhadores: rsrsrsrs... Há os que creem. Sobre a violência, digo que ela continuará, tendendo a atingir práticas e índices alarmantes; afinal, o Brasil chegou à sexta economia do Planeta, mas se mantém como um dos países cujas desigualdades sociais e concentração de renda são das mais perversas.Chances de mudanças? Sim, mas só se fizermos – à lá mundo árabe – a nossa “primavera”, pelo menos na educação. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ, dr. em Ciência da Comunicação/USP e prof. da UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16962




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