ARTIGO
Sábado, 18 de Abril de 2009, 13h:17
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PAULO LEITE
Estética do amor
Na última semana, a revista Época trouxe uma instigante entrevista com a doutora em psicologia clínica, Joana de Vilhena Novaes, sobre as doenças da beleza. Trocando em miúdos, gente que se sente feia e, por isso, começa a ter dificuldades nos relacionamentos social e amoroso. Em geral, são mulheres das classes média e alta, acometidas por distúrbios emocionais, derivados da insatisfação com suas imagens corporais. Um dos principais sintomas dessa anomalia é a queda da libido e a falta de apetite sexual, além das clássicas bulimia e anorexia. Neste ponto, chegamos ao grande axioma da vida contemporânea: o ser humano só encontra a plenitude no sexo e no culto ao corpo. Diante do espelho ou na cama, ele manipula a auto-estima e o desejo, confundindo-os com felicidade. Mentes e corações cederam lugar à ditadura da estética e do prazer. Há uma progressiva substituição do amor, do afeto e do carinho pelo sexo; mais rápido e desonerado das obrigações sentimentais perenes. Assim como se propaga uma exagerada admiração dos longilíneos, em desfavor dos outrora sedutores curvilíneos. A mesma pesquisa da doutora Joana ainda constata que nas classes menos favorecidas, a percepção da beleza também é diferente. Neste estrato, as mulheres não enxergam o sobrepeso, por exemplo, como uma nódoa estética, e sim como um gratificante sinal de opulência. Nas camadas laboriosas, a fartura de alimento é vista como símbolo de prosperidade. Mulheres ricas e pobres têm, portanto, uma relação bastante distinta, entre elas, com a estética e o desejo. Isso se explica porque as operárias e serviçais usam o corpo como ferramenta de trabalho; enquanto as mais abastadas, como elemento de conquista e dominação. Depreendemos, então, que sexo e beleza apresentam desvios psíquicos, de acordo com o segmento social que os observa. A lente que interpreta os padrões estéticos possui um foco político. Beleza é fator de colonização. Se de um lado, as mais ricas, mesmo tendo acesso privilegiado à informação, aprisionam-se a um esquema industrializado e opressor de beleza; de outro, na faixa das mulheres empobrecidas, a fêmea usa a sexualidade como instrumento de preservação da identidade social de seu grupo. Neste caso, o orgasmo serve como método de afirmação da diversidade. Beleza, portanto, é parte de um ideal estético projetado pelo mercado para satisfazer exigências políticas. Ao longo dos tempos, o corpo da mulher tem sido um perfeito veículo de propaganda e de disseminação de mensagens subliminares que vão desde as abundantes curvas da geração de atrizes do pós-guerra, que atestavam o surgimento da superpotência norte-americana; até a esqualidez da guerra fria, anunciando tempos apocalípticos. Neste contexto, o sexo é um elemento de abstração coletiva. Uma espécie de permissão moral para a fantasia e o devaneio. Mas, quando a libido começa a cair de forma voluntária e recorrente, principalmente entre os mais ricos, como revelou o estudo da doutora Joana Novaes, uma luz vermelha se acende como a denunciar a existência de um cenário de tensões sociais prestes a eclodir. Tanto na moda quanto no comportamento cotidiano, a beleza é um véu que encobre crises, traumas e tragédias. A distância entre ética e estética está apenas na articulação dos fenômenos culturais das elites. O bonito é, geralmente, moral e lícito; enquanto o feio é imoral e indesejável. Assim sendo, as que se julgam feias punem-se com a abstinência sexual voluntária, emitindo ao parceiro e à sociedade sinais de seu descontentamento com a própria imagem. A queda da libido é um auto-flagelo político, um grito de socorro ante a patrulha da estética. É a mente se manifestando contra a opressão da moda. São os sentidos rebelando-se diante da ditadura da beleza. Mas, afinal, que beleza é essa que maltrata e mutila? Que beleza é essa que as tornam frágeis e tristes? A beleza da mulher não se resume ao corpo; aflora sim, no coração. E, principalmente, em sua mística capacidade de se entregar ao amor! * PAULO LEITE é jornalista e escritor