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ARTIGO
Terça-feira, 24 de Abril de 2012, 20h:28

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

Era uma vez um português

Fala-se por aqui e acolá que para uma mentira se tornar verdade basta que sua repetição ocorra várias vezes. Pergunto: e quantas vezes precisamos repetir uma verdade para que tal seja assim absorvida? Antes de tudo, dispenso a falsa e a canalha dúvida dos relativistas deste momento flex da humanidade; no caso, daqueles que se voltariam a minha indagação, perguntando: o que é verdade? Já vou dizer... O preâmbulo deste artigo serve para que eu possa escrever outra vez sobre uma verdade que me aflige há algum tempo; mais precisamente, desde quando eu iniciara o curso de Letras em 1981. Naquele momento, eu já começava a assistir a uma “briga” acadêmica (elas existiam) entre professores de Língua Portuguesa (geralmente tradicionalistas) e linguistas (em geral, bem flexíveis no tocante ao rigor do ensino da língua materna). Hoje, tais contendas quase desapareceram. Ainda que alguns insistam no debate, ele raramente ocorre. Um dos lados (a maioria dos linguistas) não se dispõe mais a conversar com o outro; aliás, nem mesmo a ouvir esse outro, que continua a gritar, já quase feito joão batista pregando no deserto. Mas para a infelicidade dos ouvidos moucos é que as verdades escancaradas não param de explodir na cara de todo mundo. Assim, mais uma vez, o miserável desempenho linguístico – agora de graduandos – foi mote para matéria no telejornal Bom Dia Brasil (Rede Globo) do último dia 18. Com o título, “Pesquisa revela que candidatos perdem vaga por erros de português”, e com um lide dizendo que “Todo mundo se preocupa em fazer um curso de inglês ou informática, mas o português está derrubando muita gente na hora da contratação”, aquela matéria apresentou o resultado de uma pesquisa em SP, na qual se reafirma um problema nacional: o degradado, o relaxado, o humilhado ensino da língua portuguesa para os brasileiros pobres, é claro. Para exemplificar a tragédia desse (des)ensino, a pesquisa, até onde se apresentou, preocupou-se apenas com a ortografia. Logo, pedia que o telespectador prestasse “atenção nas seguintes palavras: ‘seis centos’ (separado), ‘acessoria’ (com ‘c’), ‘ecepcional’ e ‘esuberância’ (ambas sem o ‘x’)”. Com ar de espanto, foi dito que essas palavras foram escritas por universitários (de Administração, Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Ciência da Computação e Ciências Econômicas), candidatos à vaga de estágio. De cada dez que fizeram um ditado, quatro reprovaram. Na sequência, uma analista de treinamento afirmou que, no ano passado, conviveram “com uma vaga em aberto por mais de oito meses”. Fizeram vários processos de triagem e não conseguiram preencher a vaga. Já um diretor de cursinho relatou que “muitos alunos não querem se preparar para vestibular; querem suprir uma deficiência de ensino, que faz diferença no ambiente de trabalho”. Por isso, afirmou que “alunos formados voltam a fazer o cursinho por conta de dificuldades em português; não o português empresarial, mas o de escrever e interpretar textos...” Pois bem! Não sem desconsiderar a base política de algumas “novas ciências” (por mim já tratada em outros artigos) por trás desse problema, penso que os cursos de Letras deveriam ter a honestidade (engavetando dissertações e teses, quando for o caso) para rever a forma de lidar com o ensino de nossa língua. Como? Voltando-se a ter rigor no ensino da língua-padrão. A quem? Aos alunos pobres, principalmente. Por quê? Porque eles são as vítimas diretas dessas enganações pedagógicas. Mais: porque – da Academia – precisam de respeito. Simples assim! *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. Em Jornalismo/USP; prof. De Literatura/UFMT

Edição EDIÇÃO 16969




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