ARTIGO
Domingo, 13 de Setembro de 2009, 01h:34
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MÁRIO M. DE ALMEIDA
Entre berros e novelas
Arre, digo eu, ou are dizem os noveleiros! Até que enfim, depois de tanta babação, acabou o folhetim novelesco Caminho das Índias, uma xaropada global misturando culturas e costumes completamente diferentes, uma dose pra lá de cavalar para alienar ainda mais as cabeças periféricas e chegadas a esse tipo de trama. Nisso, a veterana Globo, do alto de seus quarenta anos, é campeã e supera, nessa matéria, bispos e pastores que entraram bem depois nesse mercado. Mas com não menos fome de faturar os tubos, pois que o filão é rico e apetitoso. Assanha mesmo! E no afã de encher as arcas, transformaram e estão transformando numa voracidade inaudita veículos de massa, como as TVs e rádios, em púlpitos abrangentes e que atingem em escala geométrica um público imensurável. De posse dessas poderosas armas de lavagem cerebral brigam pelo faturamento. Mas, sem os anos de janela, ou seja, sem a experiência da Globo, ainda estão no varejo. Engatinhando, como se diz. Feitos vendilhões modernos do templo, comercializam Deus toscamente. Não são, por enquanto, bons pregoeiros no leilão, pois que o berreiro e a encenação chula dos milagres deixam isso evidente. Dessa forma mambembe e primária, conseguem apenas explorar os mais ingênuos, de boa fé e, via de regra, de baixa renda e escolarização ainda menor. Enquanto, mais competente e organizada, a empresa dos Marinho ganha no atacado. Creio que não resta dúvida quanto a isso. Mas, antes que eu enverede por outras considerações e me perca também nesse caminho confuso, pergunto cá com meu botões: o que teria levado a direção desse poderoso grupo de comunicação a encomendar à noveleira Glória Peres um enredo que, entre gafieiras e favelas cariocas e palácios de castas indianas, buscou acima de tudo glamourizar a cultura hindu, seu estilo de vida e práticas religiosas. Deixando de focar as milhões e milhões de pessoas que, completamente sem teto, moram nas ruas, no mais absoluto relento, das grandes e populosas cidades onde a água tratada e redes de esgotamento sanitário é raridade circunscrita a poucos e seletos locais que abrigam as camadas superiores da sociedade feudalizada de lá. E hoje, em função da nova realidade econômica daquele distante país, são castas mais superiores ainda, porém pelo poder do dinheiro e menos por questões raciais ou de crença. Por que - eis a dúvida que martela a minha cachola já quase careca a Globo não mostrou, com a ênfase necessária e pertinente à dimensão desse problema social, a imensa legião de segregados que dividem espaço nas metrópoles da Índia com ratos, macacos, baratas e estrume de gado? Ou subhabitando choupanas infectas nas áreas rurais. Isto sem falar na imundície dos rios, sobretudo o Ganges, com cadáveres de gente e bichos boiando à flor de seus leitos. E pessoas subnutridas, quase cadáveres ambulantes também, bebendo daquela água putrefata e se banhando, a pretexto que estão sendo purificadas. Cada louco com sua mania. Essa é a deles. Como a rede Globo e não só ela, as outras também - não é de pregar prego sem estopa, minha cabeça está comichando para entender os motivos que levaram a emissora a vender (epa! Eureka! talvez ai esteja a resposta) a Índia apenas pelos seus aspectos lúdicos, exóticos e com uma beleza plástica invejável. Devidamente ressaltada maquiada, seria mais apropriado - pela tecnologia avançada das câmeras e o capricho na produção, o que é um fato, inclusive, reconhecido internacionalmente: o esmero com que são produzidos os programas da Globo, aí se incluindo as novelas. De graça ou apenas para divertir e entreter os milhões e milhões de aficcionados (as) de novelas é que não foi. Nesse caroço tem bem mais do que angú. E como tem! * MÁRIO MARQUES DE ALMEIDA é diretor do site e jornal Página Única www.paginaunica.com.br