Quando entrei no serviço público, concursado, sobrava-me gás para o trabalho. Jovem, atendia meu consultório e os afazeres do meu vínculo. Como todos, à medida que o tempo passava e a idade chegava, as forças vão acabando e o sonho com a aposentadoria começa a ter significado importante na sua vida. Dias atrás, pedi a contagem do meu tempo de serviço, pois tinha quase absoluta certeza de que havia chegado minha vez. Fui ao meu Departamento de Recursos humanos e recebi a confirmação de que os anos que ali passei, credenciavam-me à aposentadoria. Tempos atrás fazia previsão para esse dia. Sonhava ao receber essa notícia, um dia inteiro de churrasco, chamar meus filhos e noras, contar pra todo mundo que eu ia me aposentar, viajar e fazer tudo que tivesse direito. Recebi a tão esperada notícia. Não havia perto de mim um espelho para me ver. Tenho certeza de que nesse momento, a cor de minha pele deveria estar idêntica a de uma vela! Rolou pelo meu rosto duas gotas de lagrimas, saindo uma de cada olho. Achei que ambas representassem a euforia de um sonho acalentado por anos a fio. Passaram-se alguns minutos e tentava eu me recuperar da notícia que tanto esperei, quando fui percebendo que muito devagar começava a cair a ficha. Cheguei a me dar uma beliscada para ver se tudo isso que acontecia era comigo mesmo. Só alguns minutos depois, pude identificar o significado das duas lágrimas. A do olho direito rolou de alegria, pois ela ficou trinta e seis anos esperando sua vez. A do olho esquerdo rolou de tristeza, avisando-me que o tempo havia passado e eu não tinha percebido que tinha pegado uma carona com ele. E agora? Perguntava-me a todo instante. Entrei no elevador, foi passando devagar a vontade do churrasco, de contar para meus amigos que estava eu colocando o pijama, e voltou cristalina a minha mente o dia em que fui chamado a tomar posse. Parecia ontem. Trinta e seis anos de serviço público, ganhando uma insignificância que mal dá para saldar a conta da luz e da água. Infelizmente este é o destino de todo cidadão brasileiro, trabalhador, que já teve em mãos o metro de medir dinheiro. Digo metro, pois quem recebe merecidamente seu salário por serviços prestados, sabe como se deve ter cuidado com ele para não se evaporar, tal a exorbitância recebida. Sempre me pareceu, que nesse dia estaria eu recebendo um prêmio. Enganei-me. Nunca me passou pela cabeça ficar de boca aberta esperando a morte chegar. Não vou ficar mesmo! E você também! Através da educação recebida dos meus pais, meu tempo deveria ser preenchido por estudo, estudo, estudo e depois esporte. Parecia ser a melhor orientação para a época. Hoje tenho minhas dúvidas... Vejo verdadeiras culturas inúteis se locupletando de cargos públicos, que com apenas um mandato encontram-se em situação financeira privilegiada, a ponto de garantir o futuro de várias gerações. Portanto, se daqui a alguns anos quando for contar seu tempo de serviço e quiser que role pelo seu rosto só a lágrima do olho direito, vote bem! * EDUARDO POVOAS é odontólogo
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