A questão é: o Brasil precisa de uma política de defesa? Precisa. Então, vamos fazer. (Ministro Nelson Jobim, da Defesa) A Amazônia brasileira, como bem enfatizou outro dia no Sindicato dos Jornalistas o vice José Alencar, são duas. A primeira delas de um verde esmeraldino ofuscante. A outra de um azul sempiterno. A verde corresponde a mais da metade de nosso território. A azul, avançando oceano adentro, estende-se por duzentas milhas marítimas além das costas litorâneas. Costas essas, fale-se de passagem, onde se alojam, pra embevecimento dos turistas, as mais belas paisagens praieiras do mundo. Tanto uma, quanto outra, se fizeram depositárias, em dadivosos projetos da Natureza, de riquezas fabulosas. Dá mesmo pra garantir, sem receio de resvalar em exagero: de riquezas incomparáveis. A verde é a Amazônia da floresta infinita. A maior deste conturbado planeta. A Amazônia do rio infinito. O de maior extensão e maior volume d'água. Da biodiversidade que assombra. Das riquezas minerais inexauríveis. Azul é a Amazônia oceânica, de imensuráveis riquezas. Riquezas brotadas do mar de medusas que ninguém semeia, criadas com mistério e com areia, perfeitas de beleza e de sentido, sobre um casto jardim adormecido, dos líricos versos de Miguel Torga. Nesta porção de mar específica, pertencente ao Brasil, as reservas petrolíferas são colossais. Vem daí a condição privilegiada que o país ostenta hoje no rol das potências energéticas. Como resistir, a esta altura, à tentação de encaixar, aqui, à guisa de parêntese, um registro histórico puxado das ladeiras da memória? Décadas atrás, o Brasil não somente não explorava petróleo, na terra ou no mar, como também não possuía petróleo, nem na terra, nem no mar. Pelo menos era o que, confiados na suprema ingenuidade das ruas, ousavam alardear por aí, em tom irretorquível, certos dirigentes políticos de proa. Um pessoal que se aprestava, docilmente, a render vassalagem a poderosos grupos estrangeiros. Encastelado em postos relevantes, fazia uso, costumeiramente, dos aparelhos de repressão policial para conter e desestimular vozes contestatórias. Técnicos estrangeiros de currículo reluzente, vinculados a manjadíssimos cartéis, punham-se de plantão para fornecer, a esses impolutos cidadãos, tidos no conceito mundano acima de qualquer suspeita, solícita assessoria. Aviavam pareceres definitivos, para divulgação junto a uma opinião pública aturdida e desinformada, atestando a certeza científica da inexistência, no sub-solo e nas águas litorâneas, do mais leve indício, de uma nesgazinha promissora que fosse, do chamado ouro negro. O nunca assás reverenciado Monteiro Lobato apelidava esse ouro negro de sangue da terra, alma da indústria. Tê-lo assegurava o notável escritor é ter o sézamo abridor de todas as portas. Não tê-lo é ser escravo. Por emitir conceitos que tais, contrariando doutos e figurões, o autor de Urupês foi convidado, sem número de vezes, a ir ver o sol nascer quadrado, como era de costume dizer-se em tempos de antanho. Ele próprio contava. Homem prevenido, deixava arrumada, toda noite, uma mala com pertences, incluindo pijama, chinelo, escova de dentes e outros utensílios pessoais de higiene. Punha-se no desagradável aguardo de uma eventual convocação para desfrutar, por algum tempo, da hospitalidade dos carcereiros na casa de detenção. Parêntese desfeito, retornemos às amazônias verde e azul. Ambas nossas, brasileiras. Que nem o samba, o carnaval, o futebol, as estátuas de Mestre Aleijadinho. Pertencem-nos e a mais ninguém. Lá fora, há quem, paranóicamente, não pense assim. Livros didáticos em escolas mostram a Amazônia verde como protetorado internacional. O Capitão Marvel é chamado, volta e meia, a empregar seus formidáveis poderes, nos sugestivos traços dos desenhistas de quadrinhos, para combater pilantras brasileiros que só querem saber da Amazônia pra devastar floresta e traficar droga. Tribunas e jornais divulgam notícias e pronunciamentos bombásticos e falaciosos, todos reveladores da frenética cobiça assestada sobre a área. A Amazônia azul está também sob mira. As sucessivas descobertas de reservas de petróleo no fundo submarino andam suscitando grande alvoroço por esse mundo afora. As duzentas milhas marítimas do prolongamento territorial brasileiro vêm sendo questionadas. Nos Estados Unidos - ora, veja, pois! - aventa-se já a possibilidade de criação de uma frota naval bem equipada para operar em águas próximas aos países sul-americanos, com o louvável propósito de colocá-los a salvo, devidamente protegidos de eventuais perigos e ameaças externas. Me engana, que eu gosto. Salta aos olhos, face ao que foi dito, a necessidade de uma política de defesa dos interesses nacionais. * CESAR VANUCCI é jornalista
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