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ARTIGO
Quarta-feira, 17 de Setembro de 2008, 20h:33

ADILSON ROSA

Doméstica ou escrava?

O país de sete milhões de empregadas domésticas deverá perder metade desse contingente. Uma lei do Governo Federal quer transformar o empregado doméstico num trabalhador como outro qualquer – com todas as garantias da lei. E isso vai provocar uma mudança sem precedentes nos lares brasileiros, pois será caro ter uma empregada em casa. Na ponta do lápis, os especialistas dizem que não ficará por menos de R$ 1.000 por mês. Ter empregada será um luxo para poucos. Além do pagamento de 13º salário, férias, mais um terço do salário e fundo de garantia, a jornada de trabalho dela será de no máximo 44 horas semanais, de segunda a sexta-feira das 6 da manhã às 2 horas da tarde, mas poderá ser estendida por causa do horário de almoço. Aos sábados, das 6 às 10 horas. Jantar e domingo? Hora extra. As empregadas domésticas deverão virar micro-empresas e prestar serviços de uma a duas vezes por semana e com serviços especializados como de limpeza ou lavar e passar roupa. Essa é a opção para quem não quer ou não tem condições de fazer o serviço doméstico. Serão poucas, porém bem remuneradas. Ou melhor, receberão um rendimento anual maior do que o atual. O hábito de ter um ou mais empregados domésticos com salário inferior está enraizado na cultura brasileira. Famílias pequenas ou grandes sempre tiveram uma empregada em sua residência e que faziam (e algumas ainda fazem) de tudo. Não digo só limpar, cozinhar, lavar, passar e cuidar das crianças ficando o dia todo em casa. Algumas faziam consertos em roupas, o que é um luxo. E sempre com pagamento inferior a um salário mínimo. O mais comum é ganharem metade desse valor. E essa mudança vem num período em que chega a notícia de que mais da metade da população faz parte da classe média. Nos outros países, rara é a família que tem empregada doméstica. Os filhos, desde pequenos, são educados a ajudarem na limpeza da casa. No máximo, contam com uma diarista ou babá. O estrangeiro que chega ao nosso país confunde empregada doméstica com escrava, pois elas costumam não tem direito algum. Se for comprar um apartamento verá uma estranha “dependência de empregada”, parecida com as antigas acomodações das senzalas. Ao observar o elevador verá que existe o tal “elevador de serviço”. Nem na África do Sul, nos tempos de apartheid, isso existia. Só aqui mesmo, no Brasil, onde em breve finalmente será eliminado um dos últimos resquícios do tempo da escravidão. ADILSON ROSA é jornalista

Edição EDIÇÃO 16962




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