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ARTIGO
Terça-feira, 03 de Março de 2009, 20h:59

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

Do samba ao réquiem

Em meu último artigo, falei um pouco de samba; da forma como esse ritmo pode tencionar a realidade. Hoje, começo pela lembrança de mais um samba: "O pequeno burguês" de Martinho da Vila. Na letra dessa música, há um lúcido relato de alguém que driblou adversidades (livros caros, taxas, criançada pra criar, trem do subúrbio lotado) para concluir a "faculdade", embora fosse ela "particular". Após concluir o curso superior - de cuja formatura não participou por falta de dinheiro para beca e anel -, "só decepções, desenganos". Mesmo assim, passou a ser considerado um burguês; contudo, para aquele ser da música, sua situação não passava à "de um pobre coitado" e quem quisesse fazer ou ser igual a ele teria "de penar um bocado", sentencia-se na letra daquele samba. A recordação dessa música foi motivada por conta da matéria - "Universidade particular perde aluno e culpa a crise" (In: Folha de São Paulo de 26/02 pp). No desdobramento da manchete, lê-se que o "Setor (das universidades privadas) pede nova linha de financiamento do BNDES. Pode? Sim. No Brasil sempre pôde. Agora mais ainda, pois o capitalismo (na versão neoliberal) está se desmanchando no ar, aliás, como bem previra Marx que aproveita e “manda lembranças” (frase de César Benjamin) a seus desafetos na academia, principalmente. Da referida matéria, destaco alguns pontos. Um refere-se à queda do número de alunos que procuram esse tipo de comércio, travestido de ensino; e a tendência é piorar, pois a procura pelo ensino médio também vem caindo. Na contramão desses indicadores, só no Estado de São Paulo, na última década, o número de instituições privadas aumentou em 86,5%. O MEC permitiu. Hoje, quase já se encontra uma "faculdade" em cada esquina vendendo diploma universitário como se vendesse pepino em feira livre. Outro importante ponto da matéria diz respeito à "falta de qualidade" das particulares. Isso foi registrado por Carlos Monteiro, um "consultor em ensino superior". Claro que sua fala busca forjar a necessidade de o governo conceder mais verbas para esse setor da economia, como já foi feito a outros: bancário, automobilístico, aéreo... Na essência, esse pedido - se for aceito (e parece que será) - é mais uma forma de o governo colocar dinheiro público no bolso de grupos familiares que controlam as instituições privadas. Tais grupos - digo sem medo de errar - farão algo semelhante ao que foi feito na Embraer. É a tal da "livre concorrência" em tempos de crise, ou de “craziness” global. Seja como for (ou será), o consultor Monteiro disse textualmente que "a falta de qualidade em muitas instituições afasta o aluno". Confesso: eu não havia pensado que isso fosse possível. Motivo: descreio da inteligência de quem assiste ao BBB e discute mazelas daquelas vidas absolutamente miseráveis. Mais: de um povo que dá credibilidade ímpar a um governo que desmonta tudo e a todos quer levar no bico com retórica boçal e esmolas oficiais disfarçadas de programas sociais. E para uma avaliação do que seja qualidade (ou sua falta) é preciso estar fora desse quadro coletivo. Isso, hoje, é para poucos. Por tudo, discordo da leitura de Monteiro. Em minha opinião, o que tem afastado clientes das privadas é uma tímida percepção de que, com um curso superior ou sem ele, pouca diferença já está fazendo na hora de encontrar um emprego. Para ser bem claro: a maioria dos que procuram uma "faculdade particular" de fim de linha só almeja um canudo para tentar se colocar no mercado. Parece que na música de Martinho da Vila, gravada em 1969, alguém já entendera isso; afinal, depois de concluir seu curso, repito, "só decepções, desenganos". Que atual! Mas e a qualidade das universidades públicas, como está? Neste momento “down”, as instituições públicas ainda não rastejam como muitas das particulares, mas já caminham aceleradamente ladeira abaixo. Os motivos são vários e complexos. Mas isso é mote para outro artigo, em outro momento. Neste não há mais espaço, a não ser para antecipar meu temor de que, em poucas décadas, alguém tenha de compor um réquiem para o ensino superior brasileiro. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é Dr. em Jornalismo/USP. Prof. de Literatura da UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16964




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