NA HORA
O jornal de Mato Grosso Facebook Facebook twitter youtube

Cuiabá MT, Quarta-feira, 17 de Junho de 2026

ARTIGO
Quarta-feira, 11 de Março de 2009, 20h:52

EDMAR AUGUSTO VIEIRA

Desigualdade e pobreza em Mato Grosso

Os níveis de pobreza e desigualdade ainda são elevados em Mato Grosso, embora venham declinando nos últimos anos. Neste artigo consideramos pobres aqueles que vivem em domicílios com renda inferior a meio salário mínimo por morador (em média). Tomando por base a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2006, cerca de 28% da população estadual pode ser considerada pobre por esse critério. Isso representa aproximadamente 780 mil pessoas naquele ano. Este é um dado conhecido. O que ainda não se conhece é o impacto das transferências governamentais (aposentadorias e pensões, Bolsa-família, benefícios de prestação continuada e outros) sobre os indicadores de pobreza e desigualdade em Mato Grosso. Fizemos esse levantamento e chegamos a algumas conclusões importantes. As rendas do trabalho constituem a maior parte (83,8%) do rendimento total das famílias mato-grossenses. As transferências governamentais têm uma participação bem mais modesta (felizmente!): cerca de 16,2%. Quais seriam os níveis de pobreza e desigualdade se as famílias não pudessem contar com essas transferências? Para surpresa nossa, a taxa de pobreza seria de 38%, em vez de 28%; e haveria pelo menos 280 mil pessoas pobres a mais na população. Ou seja, o contingente de pobres passaria de um milhão de pessoas. Mais impressionante é que a população em extrema pobreza (renda até 1/4 do salário mínimo por morador) mais que dobraria, passando de 9% para 20%. Em números, o total de “miseráveis” se elevaria de 251 mil para 558 mil pessoas. Vejamos o que ocorreria com a desigualdade de renda, sem a complementação das transferências governamentais. O indicador mais utilizado pra medir a desigualdade de renda é o índice de Gini, que varia de zero a um. Um índice de Gini próximo de um significa que a renda está muito concentrada em poder de uma pequena minoria; por outro lado, um índice de Gini próximo de zero representa uma distribuição mais igualitária. Por este indicador o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, com um Gini da ordem de 0,5605. Para se ter uma idéia, a maioria dos países desenvolvidos possue Gini entre 0,25 e 0,40. Em Mato Grosso, o índice está em torno de 0,5284. O Estado com menor desigualdade (e menor taxa de pobreza) no Brasil é Santa Catarina, que possui um Gini igual a 0,4630. Pois bem, constatamos que o impacto das transferências governamentais sobre os índices de desigualdade é muito significativo. Se nossa desigualdade já é elevada, sem essas transferências ela seria prá lá de indecente. Em Mato Grosso, o índice de desigualdade aumentaria em 7,74%, chegando a 0,5693. E nossas estimativas verificaram ainda que os 10% mais pobres seriam os mais afetados, pois sua participação na renda seria reduzida em 85%, de 1,2% para míseros 0,2% (de quase nada para nada!). Interessante ressaltar que esses significativos impactos sobre a pobreza e a desigualdade são obtidos por um montante relativamente modesto da renda total (16,2%). A explicação plausível para isso é que as transferências governamentais de renda estão bem focalizadas entre os mais pobres, o que tem sido constado por estudos do Ipea para o Brasil. Não é de duvidar, portanto, que a previdência social e o Bolsa-família constituam um dos maiores e mais bem sucedidos programas sociais do mundo. Porém, nossos níveis atuais de pobreza e desigualdade ainda estão longe de constituírem motivos de comemoração. Considerando que as transferências governamentais não podem ser expandidas indefinidamente, temos que olhar para as demais fontes de renda – as rendas do trabalho – e verificar o que está se sucedendo neste terreno. Uma vez que essas fontes respondem por mais de 80% do rendimento total das famílias, é evidente que uma redução sustentável dos índices de pobreza e desigualdade requer maior crescimento e melhor distribuição do rendimento do trabalho. Este assunto será abordado em outra oportunidade. * EDMAR AUGUSTO VIEIRA é gestor governamental na Seplan/MT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16964




ENQUETE
Você acredita que a Ferrovia Vicente Vuolo vai chegar a Cuiabá?
Sim. Seria uma questão de tempo. E de interesse.
Não. A Rumo já sinalizou que não é uma prioridade
Tanto faz. Em MT, os políticos não ligam para a obra
PARCIAL