O Córrego Mãe Bonifácia pede socorro. As límpidas águas do riacho que corta ao meio o bosque se transformaram em esgoto a céu aberto. O mau cheiro já incomoda e o perigo de doenças ameaça os visitantes. Onde estão os responsáveis? Quem a Secretaria do Meio Ambiente (Sema) multou por poluir o ambiente de uma unidade de preservação permanente do município? Até agora, muitas reclamações e nenhuma solução. Enquanto isso, os frequentadores são obrigados a conviver com a degradação ambiental no principal parque da capital mato-grossense. Vista do alto, a vegetação exuberante contrasta com o avanço desenfreado de prédios ao redor. São 77 hectares que foram transformados em área de preservação, que deveria ser o cartão postal da cidade verde. Num ambiente gostoso para relaxar, onde a corredeira deveria funcionar como um colírio, cheia de peixinhos, os lambaris é claro, para ser um convite permanente para os olhos. Mas, ao contrário do que imaginávamos, o veneno está injetando coliformes fecais nas águas matando aos poucos a sua principal fonte de vida. Ainda criança, com apenas 9 anos de idade e, justamente, no mês do seu aniversário, o parque recebe este presente. Um triste natal para os que amam a natureza. Quem caminha pelas trilhas do Parque Mãe Bonifácia está à procura da felicidade, da beleza de suas matas, da pureza do ar, das águas cristalinas do córrego que o atravessa e da sensação de bem estar permanente. É um privilégio. Presenciar em pleno centro da capital, pássaros já não tão abundantes como antes, acompanhar a dança dos macaquinhos, se perder na cor das árvores que encontram o céu de um azul anil, intenso na maior parte do ano. É o calor cuiabano. O cheiro doce da mata e o barulho das águas fazem o visitante ter certeza de que o córrego que temos que salvar comanda a vida. Um parque limpo, sem degradação é o que queremos. Um local ideal para recarregar as energias, fazer amizades e contar histórias. E, a praça cívica é um belo ponto de encontro. Um lugar para se encontrar mistura de culturas e migrantes de todo o Brasil. É ali, que o bate-papo cuiabano se transforma num verdadeiro reunis de sotaques e costumes, que pode acabar num final de tarde no tradicional Bolo de Arroz, da rua São Sebastião. Ou, um almoço no Regionalíssimo e saborear o mousse de bocaiúva. Ou, simplesmente, relembrar o sabor de quitutes cuiabanos com receitas saborosas. Para os mais eufóricos, você ainda pode ganhar uma explicação sobre os poderes afrodisíacos do guaraná em pó ralado na grosa, tão gostoso que aquece outras partes do corpo. Portanto, fica aqui um alerta as nossas autoridades. O tratamento de esgoto em nossa capital tem que ser prioridade. De nada adianta cercar o parque se o veneno é jogado nas suas artérias. O Parque, também, é para ser utilizado para realização de eventos, shows, de preferência pela vida e a natureza. Sem poluição. Esperamos, em breve, com coerência, assistir e cantar músicas no parque como Planeta Azul de Chitãozinho e Xororó: A vida e a natureza sempre à mercê da poluição/ se invertem as estações do ano/ faz calor no inverno e frio no verão/ os peixes morrendo nos rios/ estão se extinguindo espécies animais/ e tudo se planta, colhe/ o tempo retribui o mal que a gente faz... Onde a chuva caía quase todo dia/ já não chove nada/ o sol abrasador rachando o leito dos rios secos/ sem um pingo dágua/ quanto ao futuro inseguro/ será assim de norte a sul/ a terra nua semelhante à lua. O que será desse parque? O córrego que desce as encostas já quase sem vida parece que chora um triste lamento das águas ao ver devastado, a fauna e a flora. É tempo de pensar no verde. * VICENTE VUOLO é cuiabano, economista formado pela Universidade de Brasília e ex-vereador de Cuiabá
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