Se todas as terras indígenas fossem devolvidas aos seus donos primitivos a população brasileira recuaria ao mar em busca de navios que a levasse para Portugal e África. A construção da nação ocupou o território sem fim dos índios e os levou para dentro dos limites das reservas especialmente criadas para eles. Esta é a realidade. Conflitos não faltaram em meados da década de 1970 quando o processo de demarcação das reservas indígenas ganhou contornos de irreversibilidade. Desde então, todas as áreas ocupadas se tornaram invioláveis sob tutela da Funai que representa a União. A definição do mosaico fundiário indígena, no entanto, não ficou restrita aos territórios por eles ocupados. Insuflados por ONGs supranacionais e pelo movimento ecolouco, caciques amparados pela Funai entraram em cena tentando reaver áreas ocupadas por posseiros, mas que lhes pertencem ou pertenceriam como é o caso de Marãiwatsede, da etnia Xavante, com 168 mil hectares e que até então é lar e ganha- pão de 1.159 famílias em Alto Boa Vista e Bom Jesus do Araguaia. Marãiwatsede área de perambulação xavante, que de lá foram retirados nos anos 1960 pelo colonizador Ariosto da Riva. Com a desocupação criou-se a fazenda Suiá-Missú, que na região era conhecida por Fazenda do Papa, por se tratar de propriedade de um dos braços empresariais do Vaticano. Suiá Missú murchou e posseiros a ocuparam. A reserva Marãiwatsede não pode ser considerada território da ancestralidade xavante, porque nenhum índio com menos de 55 anos se lembra dela. A expectativa de vida dos indíviduos daquele povo é baixa, o que reduz o universo dos que perambularam naquela área. Por decisão judicial os posseiros devem ser retirados e os xavantes reitegrados. Essa sentença amplia os domínios daquela etnia, mas deixa mais de seis mil pessoas à beira do abismo, por se tratar de comunidade humilde, sem qualificação profissional e que sobrevive da agricultura familiar em posses mansas e pacíficas. Enxergando Mato Grosso como um todo o governador Silval Barbosa propôs ao Ministério da Justiça permuta de área de modo a contemplar as duas partes da questão. Silval apresentou essa sugestão após o Ministério Público Federal pedir a execução da sentença de reintegração de posse. ONGs e índios ficaram em pé de guerra com o que ouviram. A insensibilidade social, o radicalismo que teima em acender a discórdia entre classes e a falta de brasilidade jogarão milhares de trabalhadores, mulheres, velhos e crianças na desgraça, porque no Brasil o que menos conta é a família do brasileiro trabalhador. Eduardo Gomes é jornalista
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