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Cuiabá MT, Quinta-feira, 11 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 31 de Maio de 2014, 19h:24

EDUARDO GOME

De impune

Esparramado na cadeira de lona de um bar numa esquina movimentada o velhinho com ar de bonachão e muito respeitado socialmente por ser poderoso dava pasto aos olhos contemplando todos os dias a sedutora morena de bunda provocante que passava perfumada, com os seios arrebitados e parcialmente cobertos por um provocante decote. A cantada era certeira, infalível, mas nunca grosseira. Ela, desconcertada, continuava caminhando bamboleante com sua pele sedosa deixando no ar o cheiro de fêmea irresistível, mas nunca dizia nada nem olhava para o velhote assanhado, suportando em silêncio o ultraje. Todos os dias era a mesma rotina. Entrava semana, saía semana; entrava mês, saía mês, e o assanhado vovô insistindo. A indiferença da morena parecia não ter fim. Parecia, pois numa terça-feira, 20 de maio, o alvo da cantada resolveu dar um basta naquela situação, que era de domínio público, mas tratada com ressalvas em respeito ao status quo, pois o dono do traseiro que ocupava a cadeira de lona era peça importante do poder, no qual muitos mamavam por meios de parentes que exerciam cargos inócuos criados somente para contemplar figuras sociais, políticas e sob apadrinhamento. O basta da morena foi desconcertante. Mal ouviu a voz do velhinho correu para ele e se atirou em seus braços. “É agora. Vamos!”, disse a fêmea dos seios arrebitados, com sua boca colada ao septuagenário ouvido. A reação o desmontou, pois a mesma vida que lhe ensinou a cantar lhe roubou a juventude e com ela levou sua virilidade. Também em Cuiabá todos os dias se ouvia a morena ser cantada. Cantada não por um, mas por muitos velhotes. Nesta terra de Rondon, também numa terça-feira, 20 de maio, a potranca resolveu botar fim àquela situação. A personagem do velhinho da cadeira de lona poderia se chamar Luana, Solange, Maria, Rosa, Leni, Rose ou Roberta. Em Cuiabá seu nome foi extraído de uma montanha turca de nome Ararath, onde segundo o livro de Gênesis, a arca de Noé encontrou terra firme após o grande dilúvio que cobriu a Terra. A morena dos seios arrebitados cantada pelo velhinho é fictícia. Os velhotes em Cuiabá são de carne e osso; de carne, osso e poder político e empresarial ou quando não tudo isso ao mesmo tempo. Na capital mato-grossense Ararath é algo abstrato, mas a Justiça Federal, a Procuradoria Geral de República e a Polícia Federal que a integram são reais e muito respeitadas e, além disso, botaram fim ao ciclo das cantadas dos anciãos poderosos. Resta saber se o Estado será capaz de punir todos os elos das cantadas dos velhotes ou se transformará alguns em bois de piranha. Se a lei for aplicada, Mato Grosso enfrentará vácuos nos poderes e nos meios empresariais; em caso contrário, o ultraje continuará impune! EDUARDO GOMEs é jornalista [email protected]

Edição EDIÇÃO 16959




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