ARTIGO
Domingo, 06 de Setembro de 2009, 02h:00
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EDUARDO GOMES
De carrinho
Imponentes paredões avermelhados parcialmente cobertos pela exuberante vegetação do cerrado assistem impassíveis a passagem silenciosa das águas do rio Vermelho ao Pantanal. Esse cenário cinematográfico é a imagem cotidiana que enche os olhos de seo Raimundo desde 3 de outubro de 1953, quando ali desembarcou de uma carroça juntamente com sua mulher, dona Altina, e a filharada miúda em busca do sonho de um sítio para trabalhar e viver em paz. Seo Raimundo é como se tornou conhecido em Jarudore o agricultor Raimundo Carvalho Carneiro, de 89 anos, dono do sítio Água Boa na área legalmente pertencente a Funai, onde vive com duas filhas, sendo que uma delas acima de 50 anos - é deficiente. A idade é implacável e seo Raimundo não tem mais a destreza nem a força da juventude. A enxada Tarza de ontem cedeu lugar a atividade menos pesada, mas não o afastou do batente. Quando o dia amanhece o encontra no quintal, jogando milho pra galinhada. Cuida dos porcos, bota um picadinho de cana pras vacas leiteiras, com paciência beneditina e sabedoria de quem conhece do ofício amola foice ou facão. Ao entardecer, cansado, feliz e realizado, eleva uma prece ao Senhor Bom Jesus, como também o faz diariamente ao pisar pela primeira vez o chão do quarto, agora vazio e tristonho pelo adeus de sua companheira Altina, que há 16 anos está sepultada no cemitério de sua terra adotiva e berço de seus netos, bisnetos e alguns filhos, Jarudore. Cabeça boa pra outra coisa nunca tive, revela ao justificar sua condição de lavrador. Em tom de extrema humildade, falando baixo e pausado enquanto amassa a aba encardida de seu surrado chapéu preto, seo Raimundo me conta que viveu em Tesouro no auge do garimpo naquela localidade, quando tinha 20, 30 anos, mas que nunca se interessou pelo diamante que fazia fortuna da noite para o dia nas grupiaras da calha do rio Garças. A história de seo Raimundo é a mesma dos 1.600 moradores da área Jarudore, a pequena gleba que cartorialmente é titulada enquanto terra indígena, mas que há mais de 60 anos é mansa e pacificamente ocupada por pequenos agricultores e moradores urbanos. A frieza da lei exige a devolução de Jarudore aos índios bororos, que a abandonaram. Seo Raimundo será atingido pela reintegração de posse pleiteada pela Funai. Sem cabeça para outra coisa, senão o cultivo da terra, à véspera dos 90 anos, para não morrer de fome, se acomodará na periferia de alguma cidade e engrossará a leva de tantos Raimundo sem horizonte, que ao fim da vida empurram carrinho de picolé. É o Brasil. EDUARDO GOMES é repórter