Jornalistas às vezes não devem mencionar suas fontes, por variados motivos. Uns justificáveis, outros mais para incompreensíveis. Mas não é exatamente sobre isso que escrevo hoje, e tem mais: qualquer semelhança com fatos reais na breve história a seguir terá sido mera coincidência. Então, mencionarei os participantes através de nomes de personagens fictícios que nos são conhecidos. Só sei que foi assim. E aconteceu numa ensolarada tarde cuiabana na redação de um jornal. Era uma quarta-feira de sol rachando e tínhamos mudado de pouco tempo para uma nova sede, prédio amplo. Bonito e funcional, com a redação no segundo andar e a maior parte de suas paredes, de vidro, o que dá uma sensação de que a gente estava na vitrine. Jornalistas geralmente gostam disso. De ficar na vitrine. Ou, pelo menos é bom, profissionalmente falando, aparecer. Envolto nesses pensamentos Seo Madruga chegou mais cedo à redação. Tudo bem. Ele vinha incomodado pela feijoada do Araripe e pelo nosso demais de quente de cada dia. Mas tava feliz com a casa nova. Entrou e se espantou com uma parte das vidraças que emparedavam a ampla sala. Ela estava repleta de folhas de jornais abertas e afixadas com fita crepe. Aquilo lhe dava a impressão do famoso puxadinho, uma dessas obras matadas que a gente faz no quintal de casa. Olhou para Dulcinéia Del Toboso interrogativamente. Ela estava sentada num computador de costas para a colagem dos jornais e respondeu: Estava muito calor e o sol batendo em minhas costas incomodava. Ele foi para sua mesa imaginando que aquilo não compunha muito bem com o ambiente. Cidadão Kane pode não gostar disso, disse. Dulcinéia deu de ombros. Enquanto trejeitava sua resposta visual, a porta de entrada abre-se novamente e Orson Welles adentrou-se. Seu celular tocava e o telefone fixo de sua mesa invejou. Seo Madruga reparou que Orson tinha estranhado a vidraça ornamentada com notícias, manchetes, fotos etc. A tarde foi passando normal e a colagem de Dulcinéia sendo reparada e vitimada pelos mais diferentes tipos de comentários. Dulci até já tinha ido embora e seo Madruga estava atento às suas funções, mas aguardando ansioso o comentário de Cidadão Kane. E eis que ele entra no recinto, para antes de entrar em sua sala olhando fixamente para a vidraça manchetada. E solta: Quem foi que fez isso?... Silêncio geral na redação. Seo Madruga achou que talvez lhe coubesse a resposta, só que ele não poderia dar uma de dedo duro. Disse: Eu sei... Mas não estou autorizado a falar. LORENZO FALCÃO é editor do caderno Ilustrado e escreve neste espaço às terças-feiras
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