ARTIGO
Quarta-feira, 19 de Agosto de 2015, 21h:04
A
A
AMADEU GARRIDO DE PAULA
Cultura
Alguns intelectuais engajados no plano da esquerda preferem falar da educação massiva do povo ao invés de cultura. Esta seria um luxo, num país educacionalmente estagnado. Cremos que tanto a educação como a cultura, certamente caracterizadas por matizes diferentes, são imprescindíveis ao bem-estar de uma nação. Apontaremos as mazelas da educação e da cultura que repercutem de nosso sistema de transmissão geracional de conhecimentos e impactam profundamente nossa nação. Sem os conhecimentos que formam o arsenal educacional, o homem tem míseras possibilidades de um viver material razoável. Basta citar o analfabetismo ou o quase analfabetismo, este ainda inaceitavelmente presente entre a população brasileira. Mal e mal, os conhecimentos "dão para o gasto". Formam esses brasileiros uma imensidão de seres humanos que ocupam os mais baixos degraus do trabalho e da produção. Em geral, povoam nossos inumeráveis cortiços e proliferadas favelas urbanas, ou vegetam explorados no mundo rural. Boa parte trilha o crime, desde tenra idade. Caminhemos ascensionalmente em direção ao povo brasileiro educado, segundo os padrões oficialmente adotados. Muitos não logram realizar as quatro operações aritméticas e expor seus raciocínios intuitivos de modo lógico, compreensível e, sobretudo, escrito. É a grande maioria do povo brasileiro. Nossa educação básica é desastrada. Os níveis médios são sofríveis. Alguns bons cursos técnicos ficam emparedados no desconhecimento, por seus alunos, das noções ementares que são pressupostos inafastáveis de uma formação técnica. Por fim, a tragédia das denominadas "universidades", que, de universidades, nada têm, tomando-se como paradigma o quadro universal. Em geral, são aglomerados de instituições particulares de ensino rotuladas de "nível superior", muito distantes de levar a cabo o ensino, a pesquisa, a capacidade crítica e proporcionar as necessárias capacidades inerentes aos cursos de gradução e pós-graduação. Logo, estamos simplesmente falidos em termos educacionais. E o mais preocupante é que a preocupação do atual governo converge no sentido qualitativo e limita as soluções às verbas disponíveis, quando esse fator, embora determinante, é insuficiente. Apenas duas universidades (públicas) têm despontado no "rankings" mundiais e com algum destaque na América Latina. Insertos nesse panorama, como falar em "cultura" do povo brasileiro, se a cultura está acima da educação, importa em conhecimentos críticos e de níveis profundos, não devendo ser confundida com simples erudição, mas conceituada como um conjunto de conhecimento que permite a mudança de um país por meio de relações intersubjetivas civilizadas e justas. À cultura são indispensáveis conhecimentos meta-educacionais, no Brasil restritos a uma elite - elite cultural -, não necessariamente a elite demonizada pelas esquerdas. Muito pelo contrário, não raro apoiadora de seus projetos. Evidentemente, esse terreno já é próprio das inclinações subjetivas, das diferenças de personalidade, das inclinações individuais. As instituições que, verdadeiramente, podem ser consideradas universidades, são propagadoras de cultura aos interessados. Aí residem os melhores cérebros, sem os quais não passa de ilusão figurar entre as melhores economias do mundo, mas, mais corretamente, entre as melhores sociedades do mundo, que deve conduzir nossas legítimas aspirações de convívio humano. O espectro é amplo, radica-se nos estudos filosóficos e trafega pelas profundezas dos conhecimentos tidos como científicos ou exatos e humanísticos. Nem sempre os homens cultores serão os políticos dominantes, como se vê de inúmeros países, em que a política é dominada pelos cultores de interesses materiais e peritos em manipulação popular. Por tais considerações, constatamos como nos encontramos distantes da educação desejável e como a cultura é, infelizmente, simples miragem no deserto cognitivo em que se constitui a sociedade brasileira. O tempo de superação é inevitavelmente excessivo; mas, bem pior que essa constatação, é verificar que não se inicia a materialização de pragmáticas cuja omissão condena, pelo menos até nossos tetranetos, não viver, mas povoar um país e integrar um Estado entrópico, de crescentes dificuldades e sacrifícios. * AMADEU GARRIDO DE PAULA é advogado especialista em Direito Constitucional, Civil, Tributário e Coletivo do Trabalho.