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ARTIGO
Sexta-feira, 13 de Abril de 2012, 21h:51

SEBASTIÃO CARLOS

Cuiabá: qual futuro é possível? - I

“Uma cidade nasce antes/na imaginação/e é filha de sentimentos /menos que fruto da razão”. A intervenção da poesia no conceito de urbanismo, e por consequência na paisagem urbana, é para consignar a cidade como um local de paz e de felicidade. Elisabeth Bishop, a consagrada poetisa norte-americana que nos anos cinquenta viveu no Rio de Janeiro, escreveu com propriedade que “o Rio não é uma cidade maravilhosa, é apenas um cenário maravilhoso para uma cidade.” Um cenário que, de resto, pode ser despedaçado, desfigurado. Daí que a ignorância, o desconhecimento da realidade ecológica, a ganância e a falta de amor à cidade e de civismo pode transformar um local, originalmente paradisíaco, em ambiente de caos urbano, de inchamento populacional ao invés de crescimento ordenado, enfim tornar uma cidade infernal e infeliz para se viver. No ano de 1884 esteve em Cuiabá, rumando para a descoberta da foz do rio Xingu, o cientista alemão Karl Von den Steinen. Passou aqui algumas semanas e em 1886 publicou na Alemanha o livro em que registrou as impressões que teve de Cuiabá. Conto essa história e trago trechos dessa estada em meu livro Viagens ao Extremo Oeste. O tedesco se referiu a Cuiabá como uma “idílica cidadezinha residencial, no interior do sertão” e comparou a hoje praça Alencastro: “Aqui se tem a impressão de uma linda cidade balneária alemã, numa tarde de domingo”, e ainda, “tudo é de tal modo cheio de indizível tranquilidade idílica que se tem a impressão de perambular por um vilarejo da Turíngia.” Faço referência a essas passagens, como poderia fazer a de tantos outros viajantes que por aqui estiveram. Já vejo que os modernosos, autorreferenciados como progressistas, estão rindo e soltando chistes de ironia a dizerem: “esse tonto sonhador, e, portanto ultrapassado, quer que Cuiabá retorne ao século dezenove.” Sabem, porém, muito bem que não é disso que se trata. Quis apenas estabelecer um marco referencial para dizer que Cuiabá já foi tida como uma cidade agradabilíssima para se viver e, se deixou de sê-lo não significa que precisa continuar a ser um lugar impessoal feito apenas de concreto e de asfalto. Poderemos, entre um parâmetro e outro, estabelecer um modus vivendi mais agradável que o atual e o que poderá vir a ser. Por exemplo, nessa discussão novelesca entre VLT e BRT, por que não se pensar na possibilidade de bondes? Ledo engano supor que a implementação de qualquer desses sistemas de transporte, que só percorrerá a área mais central da cidade, irá representar, como num passe de mágica, a melhoria dos transportes coletivos das duas cidades gêmeas. Sim, podem continuar a rir os céticos e gozadores de plantão. Bondes que funcionam, que são belos, simpáticos e que atraem inúmeros passageiros existem em Portugal, chamados de eletro, em São Francisco, na Califórnia, os cable car, e mesmo no Rio de Janeiro, em Santa Tereza. Romantismo à parte, a questão do “transporte urbano não se resume apenas ao deslocamento de passageiros e cargas, mas também à organização espacial de todas as atividades dentro da cidade”, lembra John Dyckman, doutor em planejamento urbano da Universidade da Califórnia. A preocupação maior – estarão discutindo isso? – é o entorno desse transporte sobre trilhos, ou seja, aquilo que outro especialista norte-americano, Wilfred Owen, chamou de “criar uma atmosfera na qual o sistema de transporte possa funcionar.” [continua]. *SEBASTIÃO CARLOS GOMES DE CARVALHO é advogado, professor e historiador. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Publicou: Viagens ao Extremo Oeste – Desbravadores, aventureiros e cientistas nos caminhos de Mato Grosso, entre outros.

Edição EDIÇÃO 16960




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