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Cuiabá MT, Quarta-feira, 17 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 28 de Março de 2009, 13h:13

MÁRIO MARQUES DE ALMEIDA

Cuiabá e seus tipos

Na pia batismal e no registro civil da pequena cidade de Anta Gorda, Rio Grande do Sul, recebeu o nome de Deolino Belatto, pelo qual poucos o conhecem. Já o Gringo da banca de revista anexa à padaria Los Angeles, na avenida do CPA, é uma figura popular e, mais do que isso, querida. Estabelecido há 18 anos no mesmo local, e sempre no mesmo ramo. Antes, porém, de se estabelecer nesse comércio, ele tocou, por mais de 20 anos, restaurante em Cascavel (PR) – repetindo uma trajetória de muitos gaúchos que, antes de aportarem em Mato Grosso, fazem “escala” no Paraná -, e bem antes ainda, quando vivia na sua Anta Gorda, “trabalhava na roça, puxando enxada”, fala com orgulho de suas origens modestas de homem honesto e trabalhador. Sua banca se constitui em um dos principais pontos de encontro da Capital mato-grossense, uma cidade, aliás, com o velho – e bom - costume de reunir, em determinados locais, pessoas das mais diversas camadas sociais. E o Gringo é um desses pontos seletos, porém democráticos e bem de acordo com a tradição cuiabana de não fazer distinção social. Na banca do Gringo a hierarquia acaba, e ali, na condição apenas de amigos do Gringo, se juntam desembargadores, juízes, promotores, delegados, políticos (com mandato ou sem), empresários, jornalistas, entre outros menos ou mais votados. Necessariamente, nem todos são amigos entre si, mas têm um elo forte em comum: gostam do dono da banca. E curtem o fato de ele, às vezes, estar resmungão e “ranzinza”. Um direito adquirido por ele do alto de seus 79 anos de idade – bem vividos, por sinal. Cuiabá, embora esteja se metropolizando de forma célere, com todos os transtornos e inconvenientes das grandes urbes, como a explosão da violência e os irritantes congestionamentos de trânsito, ainda carrega uma característica marcante - e singela -, das cidades pequenas: locais onde se reúnem amigos e conhecidos, para jogar conversa fora... Sem compromisso com horários e nem formalidades. Essa descontração é bacana! Esses pontos de reunião, que podem ser uma calçada, como a do “Senadinho”, na rua Cândido Mariano, mesas de bar a exemplo de algumas tradicionais do Chopão que costumam reunir grupos heterogêneos formados por pessoas de profissões diferentes que ali batem “ponto” há anos; uma praça como a Alencastro ou uma banca de jornal, como a do Gringo. Ou até um lanchonete de posto de gasolina, conforme é a lojinha de conveniência situada no pátio de um desses estabelecimentos, na Avenida do CPA, e na qual a Confraria do Calazans marca presença, nos finais de tarde. Chama a atenção, nesses ajuntamentos de pessoas, o fato de que não existe lugar para o ambiente corporativista, de segregação, espécie de clubes fechados onde só entram os pretensamente mais cultos. Ou mais ricos. Nesse sentido, Cuiabá, ao menos no que tange às suas rodas, abole preconceitos. Há espaço para pessoas das mais diferentes classes sociais. Isso é valioso em termos de relacionamento social e humano, digno de ser exaltado como um aspecto profundamente democrático que permeia a sociedade cuiabana. Voltando ao Gringo, ele não se deixa curvar pela idade avançada, mantêm-se ágil e lúcido, trabalha todos os dias na banca que ostenta, na parede ao lado, uma placa com os dizeres “Praça do Gringo” – uma doação de seus amigos. Junto com a placa, dois bancos que lembram os de bucólicas e aprazíveis cidades do interior. Ele é bem Cuiabá. De gregos e troianos. De cuiabanos, gringos e baianos. Mais do que uma cidade, um grande e fraternal ponto de encontro pulsando vida no coração da América do Sul. MÁRIO MARQUES DE ALMEIDA é diretor do site e jornal Página Única

Edição EDIÇÃO 16964




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