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ARTIGO
Terça-feira, 10 de Março de 2009, 20h:10

ROBERTO B. DA SILVA SÁ

Costelas de Adão na literatura

Desde 1910, na Dinamarca, quando da realização da 2ª Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, propõe-se a realização anual do Dia Internacional da Mulher, visando a um mundo novo, sem exploração e opressão do homem pelo homem e especificamente da mulher pelo homem. A data ficou para ser definida em cada país. No Brasil, a cada 08 de março, cumprimentos são externados pela luta daquelas que – segundo metáfora bíblica – saíram das costelas de Adão. Numa demonstração de ruptura de alguns limites econômico-sociais e maldições impostas por ditames religiosos, Evas do agora vão se libertando e ampliando espaços, na tentativa de obter respeito e reconhecimento social no doloroso processo histórico da humanidade. Ainda no clima dessas comemorações, insiro as minhas, mas mescladas de algumas inquietações. Espero contribuir com reflexões que julgo serem indispensáveis, não só às mulheres, como a "todos os homens de boa vontade" desta degradada contemporaneidade. Para isso, nos limites de um artigo, farei retrospectiva de como, lítero-musicalmente, o homem via e vê a mulher, que sempre foi um dos itens de maior inspiração. Por influência direta em nossa literatura, inicio pelo medievo português. Lá, pela confinação ao espaço doméstico e pelas rígidas fronteiras das classes sociais na vigência do regime feudal, a mulher era vista como ser inatingível. Assim, predominava o mesmo tipo de submissão que um vassalo (escravo) despendia a seu senhor. Ex: "A dona que eu am'e tenho por senhor// amostrade-me-a Deus, se vos en prazer for//, se non dade-me a morte" (Bernal de Bonaval). Num salto bem longo, e já nas páginas de nossa literatura, o eu-poético (voz que fala nos poemas) do barroco Gregório de Matos, ao se dirigir a uma de suas amadas (Dona Ângela), assim o fizera: "Anjo no nome, Angélica na cara// Isso é ser flor, e Anjo juntamente:// Ser Angélica flor e Anjo florente,// Em quem, senão em vós, se uniformara". No século seguinte (XVIII), surgiu uma das mulheres mais amadas pelo seu poeta: a famosa Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga. Este, travestido de pastor e transbordante de amor, era verdadeiro devoto daquela: "Se estou, Marília, contigo,// não tenho um leve cuidado;// nem me lembra se são horas// de levar à fonte o gado...". Já no período romântico (Séc. XIX), ainda por influência européia, mas também por ingredientes sociais e econômicos próprios, várias foram as personagens idolatradas por seus amados. Ceci, Inocência e Honorina foram algumas delas. Mas, numa mudança de foco, uma das primeiras e mais avançadas à época (Aurélia), saiu das páginas de Senhora, de José de Alencar. Aquela personagem chegou a comprar o marido, numa relação absolutamente comercial. Já no romance Memórias de um sargento de milícias, de Manoel Antônio de Almeida, Maria da Hortaliça permitiu receber um beliscão e uma pisadela de um galanteador durante uma viagem. Resultado: um filho chamado Leonardo. Já na estética realista, entre bonitas, mas às vezes mancas, e feias surgiu em Dom Casmurro (Machado de Assis) a mais intrigante das personagens femininas: Capitu, qual fosse aquela de "olhos de cigana oblíqua e dissimulada". No naturalismo, a sensualidade de Rita Baiana (Aluísio Azevedo) é de esquentar as páginas do livro O Cortiço. Nessa vertente da sensualidade, abundaram belíssimas composições. Por conta de espaço, destaco duas: "Garota de Ipanema" (Vinícius de Moraes) que, "linda e cheia de graça, num doce balanço", passava "a caminho do mar" e "Morena de Angola" (Chico Buarque) que, mesmo durante conflito civil, quando – pelo Regimento – passava com seus "chocalhos amarrados na canela", dava pausa na tensão social, fazendo "requebrar a Sentinela" com seu dengoso charme. Infelizmente, na exacerbação da linha de Genival Lacerda, depois de alguém, numa cacofonia, declarar amor "pela dona do primeiro andar", as respeitosas composições – mesmo as que destacavam a sensualidade – foram se rareando; cederam lugar ao chulo, ao grotesco. Assim, em composições do tipo "boquinha da garrafa" e "créus", as mulheres vão sendo desrespeitadas e “escravizadas” pela lógica do consumo, exposta pela mídia que, na busca do lucro fácil, destina amplo espaço a essas aberrações. É preciso reverter a situação. Isso é desafio de todos. A educação de qualidade é determinante no processo. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é Dr. em Jornalismo/USP. Prof. de Literatura da UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16964




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