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ARTIGO
Terça-feira, 04 de Junho de 2013, 19h:44

RODRIGO VARGAS

Contos da carochinha

Era uma vez uma empreiteira que recebeu do governo uma grande quantia para construir uma escola. Mas, em lugar do concreto, decidiu erguer as paredes com isopor, cola, cuspe e papelão. Claro que, desse modo, ficou muito mais barato concluir a obra, mas a construtora decidiu guardar a informação para si -assim como fez com as sobras do valor estabelecido em contrato. Como ninguém do governo tinha tempo, competência ou interesse para fiscalizar, bastou uma olhada rápida nas fotos da obra que, pintadinha, parecia perfeita, concluída com louvor e aprovada. Tanto é que, no momento da inauguração, foi concedida à primeira-dama do Estado a honra de lançar as primeiras palavras em louvor à moderna construção que o governo acabara de concluir. A nova escola, disse ela, abriria oportunidades para a "inclusão e ascensão social" e permitiria a oferta de "novos conhecimentos” aos mais carentes. Logo no primeiro dia de aula, porém, um vento forte levou tudo pelos ares, deixando os alunos, que sonhavam se qualificar para bons empregos em um evento internacional, em um fétido atoleiro no fim do mundo. Na falta de algo melhor para dizer, os diretores da construtora declararam-se vítimas de sabotagem e recorreram até à polícia para descobrir quem afinal teria causado o absurdo que eles próprios haviam perpetrado. A polícia investigou, ouviu pessoas, apreendeu computadores de funcionários. E acabou por concluir que tudo não passou de um equívoco cometido por uma funcionária do terceiro escalão, que havia usado um projeto de engenharia copiado da internet. Detalhe sórdido: a moça não tinha diploma. Ou seja, um caso inegável de plágio do trabalho alheio. Encaminhado à Justiça, o absurdo resultou em uma reprimenda pública à funcionária irresponsável, além de multa e pena de prestação de serviços comunitários aos donos da empresa. E nada mais. Concluído o triste episódio, a empreiteira voltou a fechar contratos com o governo. Desta vez, segundo eles, com maior controle sobre a atuação de seus funcionários. “Linha dura”, assegurou um dos diretores. Ninguém nunca mais perguntou (e nem haveria quem pudesse informar) sobre o destino do dinheiro aplicado em uma obra que, na prática, ainda daria muito trabalho para concluir. Indiferentes aos críticos, o governo e a empreiteira seguiram adiante, felizes para sempre. Fim. RODRIGO VARGAS é repórter do Diário [email protected]

Edição EDIÇÃO 16960




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