NA HORA
O jornal de Mato Grosso Facebook Facebook twitter youtube

Cuiabá MT, Quinta-feira, 11 de Junho de 2026

ARTIGO
Terça-feira, 10 de Julho de 2012, 20h:53

GABRIEL NOVIS NEVES

Conferencista

Minha filha participou de um Congresso de uma grande multinacional em São Paulo. Durante o dia as palestras são técnicas: planejamento estratégico, mercado e marketing. Sempre coordenadas pelos melhores especialistas da área, tanto brasileiros quanto estrangeiros. À noite sempre é convidado um vencedor para a conferência; não se exige currículo acadêmico. Já passaram por lá ex-presidentes da República, escritores, empresários, atletas, artistas, etc. Neste congresso, o conferencista que encantou minha filha foi um conhecidíssimo personagem do mundo esportivo, e como ela não acompanha futebol, nunca tinha ouvido falar dele. Após a conferência, de tão entusiasmada que ficou, esqueceu-se até do fuso horário e me telefonou - acordando-me - para saber se eu conhecia um técnico de futebol cujo nome falou embaralhado, mas logo traduzi: Muricy. Ele mesmo! O Muricy Ramalho, atualmente é técnico do Santos. Dei essa informação para ela. - Pai, o senhor precisa assistir a uma conferência dele. É um espetáculo, e todo mundo gostou, foi aplaudido de pé após a sua fala – disse minha filha, muito empolgada. - Minha filha – falei -, conheci o Muricy como jogador de futebol. Nunca foi essas coisas. Era jogador mediano de clube. Todos os domingos eu assisto às suas mal-humoradas entrevistas. Para mim é uma surpresa saber que o Muricy é conferencista, e que causa esta reação agradável nas pessoas, ainda mais em um Congresso Internacional. - Pai, foi a maneira como ele se apresentou – explica minha filha, e reproduziu mais ou menos para mim o teor da conferência: “Sou feio, baixo, gordo, barrigudo, nada simpático, grosso e mal-educado no tratamento das pessoas; segundo a maioria, não me visto bem, tampouco frequento lugares da moda e badalados”. “Falo o que penso, e isso não é agradável para ser ouvido, tanto no futebol quanto em outras atividades. Politicamente, meu comportamento de empregado não é o correto”. “Sou técnico de futebol por profissão. Os grupos que comandei conquistaram inúmeros títulos: foram cinco de campeão brasileiro de futebol e outros estaduais”. “Atualmente trabalho no Santos, onde há dois meses ganhamos o título de campeão paulista de futebol. Apesar desse feito recente, posso ficar desempregado se o meu grupo não obtiver bons resultados”. “A minha profissão exige resultados, e todo o trabalho que realizo com o grupo está centrado em resultados positivos. Não pratico a autoestima com os meus atletas, porque isso não lhes falta”. “Trabalho intensamente nos treinamentos táticos e físicos, sempre lembrando aos atletas que o meu emprego, e o deles, depende de resultados”. “Acredito que, no caso da multinacional, a metodologia também seja essa. Se os resultados não forem alcançados, a empresa vai à falência, levando os seus proprietários para o brejo, e os seus funcionários ao desemprego". “A única empresa onde os resultados não causam preocupações é a empresa Brasil”. Escutei sem interrompê-la. E pensei cá comigo: - Era tudo o que os donos da multinacional queriam que os seus funcionários ouvissem, e pela voz de um ídolo nacional. Em mim esse fato fez renascer um passado não muito distante, em que vencedores sem títulos acadêmicos davam aula na UFMT. *GABRIEL NOVIS NEVES é médico e ex-reitor da UFMT

Edição EDIÇÃO 16959




ENQUETE
Você acredita que a Ferrovia Vicente Vuolo vai chegar a Cuiabá?
Sim. Seria uma questão de tempo. E de interesse.
Não. A Rumo já sinalizou que não é uma prioridade
Tanto faz. Em MT, os políticos não ligam para a obra
PARCIAL