Familiares de grande amigo particular venderam seus bens e mudaram para Cuiabá com todos os seus sonhos, ideais e vontade de trabalhar. Vieram para uma terra virgem, inexplorada, selvagem, pantaneira do mundo e sem as chuvas destruidoras e o frio intenso das bronquites e rouquidões. O maior sonho do meu amigo familiar de antepassados fugidos da segunda guerra mundial é receber um título de Cidadão Cuiabano e Mato-grossense, pois já está por aqui há mais de mês e já se considera um herói sobrevivente. Vou dizer o porquê. Seu maior susto foi na chegada. Meio dia e meia, mês passado, aeroporto de Cuiabá. Na porta da aeronave, abriu os braços numa tentativa de homenagem-abraço nesta região de seus sonhos. Cadê o ar? Sentiu um ar quente e seco e retornou para dentro do avião pensando que estaria passando mal. Saia fumaça em rolos de sua boca/pulmões. Ele jamais tentou respirar, em toda sua vida, um ar quente, acima dos quarenta graus. O ar não entra mesmo. A vida toda respirando zero graus ou os trinta dos ares condicionados ligados no ar quente. Ele me contou que para todo lado que virava a boca o ar era quente prá burro. E, como ele não é burro, sofreu. O pior é que não enxergava coisa alguma por causa da fumaça violenta que assola esta capital desde o dia que foi descoberta ou fundada. Mesmo com a máscara de oxigênio dos bombeiros, não conseguia ler, pois os olhos ardiam como pimenta e as lágrimas intensas confundiram seus amigos. Chorava de saudades ou sofria de verdade? Os rins não funcionam direito com muito calor. Ficou internado em sua própria casa, debaixo de um ar condicionado a todo vapor e há três dias já alterna cinco minutos fora e vinte e três horas e cinqüenta e cinco minutos dentro do quarto refrigerado. Esse período de descompressão é salutar. Os rins voltam a funcionar no frio e, pouco a pouco se adapta. Segundo ele mesmo. Ele ainda não me disse coisa alguma, porém sinto no ar uma grande frustração dele ao constatar nos pequenos intervalos de lucidez-ensolação que Cuiabá não é uma floresta de Tarzan e a montanha secreta... Sinto nele uma amarga tristeza ao olhar para as centenas de gaiolas das loucas que são os prédios de forno microondas onde são assadas as famílias cuiabanas. Só encontra nesta capital do Deusme-livre apartamentos de concreto por todos os lados, pequeninos, com menos de trezentos metros quadrados, ao contrário das cidades civilizadas, entupidos de ar condicionado que ficam urrando o dia todo como se fossem verdadeiras usinas nucleares ou fornos de microondas para banho de óleo nos cabelos de madames ou, ainda, sauna gratuita. Descrevi minha Cuiabá antiga, do sonho atual dele, como aquela casa de minha infância, lá no Mundéu. Paredes grossas de quase um metro de espessura. De barro socado ou taipa socada. Altura do telhado, mais de oito metros. Sem forro. Telhas pesadas de barro com vãos que davam prá ver as estrelas. E os borrifos da chuva de verão. Cercada de mangueiras, com sombra o tempo todo. Não havia camas, apenas redes. Chão de terra batida, lisa, fria. Água de pote de barro no canto mais escuro da casa. Quase gelada. Não havia carros, queimadas, barulho desses idiotas surdos geração fumacê e nem eletricidade. Só lampiões e velas. As eleições eram honestas. Os próprios candidatos saiam de casa em casa colhendo as cédulas dos moradores e entregavam tudo ao contador de eleições. A gente confiava neles que sempre ganhavam alternadamente. Numa eleição era o PSD que vencia e na outra, sempre a UDN. Eu acho que ele nem acreditou, pois me avisou que está de mudança para São Paulo. Ahh, coitado! * PAULO ZAVIASKY é jornalista
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