Eliot Spitzer provavelmente seria o atual inquilino da Casa Branca se não tivesse poderosos inimigos em seu caminho. Pelo menos é isso que a narrativa montada pelo experiente documentarista Alex Gibney deixa transparecer em seu ótimo Cliente 9 Ascensão e Queda de Eliot Spitzer (EUA, 2010), que pode ser visto este mês em vários canais da HBO. O documentário mostra os bastidores da trajetória deste advogado, que em 1999 assumiu a procuradoria de justiça de Nova York, aos 40 anos. Rico e pai de família exemplar, ele empreendeu uma perseguição implacável contra grandes corporações americanas e deu início à investigações no mercado financeiro que lhe renderam o título de Xerife de Wall Street. À medida que conseguia a condenação de empresas com multas milionárias e denunciava as distorções em operações nos bancos e fundos de investimentos, que em 2008 levariam a economia americana à bancarrota, Spitzer angariava popularidade, inimigos e autoconfiança. Em 2006, temido por Wall Street e amado pelo povo, Spitzer foi eleito governador de Nova York pelo Partido Democrata, com o recorde de 69% dos votos. O próximo passo, segundo os analistas políticos, seria à presidência dos EUA, na vaga que acabou ficando com Barak Obama. No auge da fama e poder, Eliot Spitzer acabou caindo por causa de um escândalo sexual. Em março de 2008, o governador assumiu a culpa por ter se envolvido com mulheres de uma rede de prostituição de luxo. Sua queda foi comemorada por políticos republicanos e, principalmente, pelos poderosos banqueiros de Nova York. Cliente 9 era o nome com que o FBI identificou Spitzer durante as investigações, que estranhamente vazaram à imprensa. Como de praxe nos escândalos de políticos dos EUA, a rua e os jornais se deliciaram com as fofocas de alcova. Os chistes dos adversários desmoralizaram o xerife. Ao contrário do ex-presidente Bill Clinton, pilhado sob suspeita de ter praticado sexo com uma estagiária na Casa Branca e cometido perjúrio, Spitzer tinha mais gente interessada em transformar o seu caso em um enterro político ao invés de simples piada de salão. A narrativa montada por Gibney funciona como um libelo contra o mercado financeiro americano e é claramente favorável a Spitzer, mas sustenta a parcialidade encaixando peças capazes de fazer crer que se engendrou contra o governador uma dedicada vingança que, na tela, às vezes se aproxima de uma comédia de erros. Ao ex-governador restou uma velha lição da mitologia grega: quanto mais alto, maior a queda. * Gustavo Oliveira é diretor de Redação do Diário.
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