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Cuiabá MT, Quarta-feira, 17 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 24 de Junho de 2000, 16h:44

PAULO ZAVIASKY

Cinqüenta anos após

No final da década de 40, até início da de 60, só havia um bom cinema em Cuiabá. O Cine Teatro Cuiabá, no centro da cidade. Outros existiram, porém, “cines poeiras”, cineminhas de pobres, de aventureiros que adoravam iludir o povo pobre para conseguir uns trocados para comprar pinga com limão. É claro que havia algumas exceções. Aquela gurizada que adorava Hollywood e não podia ver uma máquina de cinema, desde as mudas e pequeninas, até as grandonas e sonoras. As pequeninas, rodavam filmes de 16mm e as grandonas, chegavam, até aos 35mm que era a mesma bitola, largura, dos celulóides dos cinemas de verdade. Bem mais tarde surgiram as de 70mm, as de 8mm e Super 8mm, depois o vídeo, o DVD e, agora, a micro projeção/laser ultra-definição virtual onde até se pode dançar com garotas quase ao vivo no meio da sala(só que, ainda, sem a sentir)... A holografia moderníssima. Quando alguém conseguia um rolo de filme (mudo e em preto e branco) pornográfico era um “deus nos acuda” e o dono do tal filme era como o dono da bola de futebol que, mesmo sendo perna-de-pau exigia jogar no time. Ele jogava e nós tínhamos a bola! Na guerra e no amor vale tudo! Uma cotizada daqui, outra dali e um lugar especial, sempre escondido, e lá estava todo mundo tendo aula ginecológica de medicina legal do passado... Pois bem, mas, cinema mesmo, só um, o Cine Teatro Cuiabá que levou um susto quando o grande e saudoso cantor de “O ébrio” e tantos outros sucessos, Vicente Celestino, aqui se apresentou. O microfone pifou, como sempre, e ele o jogou de lado e foi aquele delírio... O povo que superlotava o cine, eu ainda de calças curtas, ouvia, do lado de fora, a voz potente e linda do grande artista. E a nova geração nem sabe que havia o Centro Artístico e Musical, lá em cima, onde grandes e saudosos saraus de verdade, música erudita, piano de cauda importado da Alemanha... Na verdade, para mim que nunca entendi de piano, poderia ser até de Livramento(MT) que eu engoliria a afirmação. Era época de ouro onde tudo era importado. Coreto do Jardim, da Áustria; Chafariz, da França; Gasômetro, da Itália; bancos do jardim, da Suécia; postes, do Alasca; lâmpadas americanas; cercas de ferro e cobre, bem trabalhados, que cercavam todo o jardim (hoje conhecido por Praça Alencastro, em frente da prefeitura) a fim de se evitar a entrada de negros, empregadas domésticas, as babás, pobres e prostitutas, com guarda e tudo (engraçado, esses mesmos guardas que impediam a entrada de PPPs (pobres, pretos e putas), eram PPPs... Igualzinho certo clube religioso daqui, hoje falido, que era assim também)... Tudo comandado pelos “coronéis” políticos da época. Porém, o Cine Teatro Cuiabá, além do suntuoso palco, tinha embaixo da tela, um enorme buraco/espaço escondido onde ficava a orquestra, onde meu pai era um dos músicos, ao bandolim e, até, o violão, Porém, sua missão era o violino que adorava se referir como algo divino e que deveria chorar em seus ombros e, nunca, o crime que se cometia por aqui em “rasparem” as cordas, rasgarem os ouvidos... O som realmente saía daquelas cordas no ombro do saudoso velho como um gemido de amor, um choro de saudades ou um sorriso de arco-íris, aprendido nas estepes geladas da Rússia, no intervalo das duas grandes guerras mundiais... É que os filmes eram mudos. A orquestra dava o tom. Depois, sonorizou-se o cinema, todo mundo perdeu o emprego e cada um foi para seu lado, xingando os governantes, exatamente como se faz hoje. A diferença é que antigamente a culpa era das duas grandes guerras mundiais e, hoje, do FMI. E, o progresso sempre tirando, quando deveria ser o contrário, os empregos dos seres humanos. Se antigamente a simples sonorização dos filmes tirou empregos de milhares de pais de família, hoje a informática o faz. Amanhã os robôs... Confesso que assisti a milhares de filmes, mas, só me lembro dos faroestes encantados e de Tarzan, por matar todos os bichos e arrasar com as florestas africanas. Os românticos, não me lembro de algum. Por duas razões. Nos filmes românticos, só ia com namoradas. E, sejamos sinceros, qual é o moleque normal que assiste mesmo a um filme ao lado de uma namorada?!... Nem olha p’rá tela! Depois é uma dificuldade para o desembaraçamento dos braços, mãos e pernas... E a outra razão é que tais filmes eram sempre uma porcaria. Não havia tiros e nem mortes nas diligências... Só beijos e abraços. Mais uma coisa. O “dono” do cinema deixava seus “gerentes”, os empregadinhos, escolherem os filmes. Ora, tais “empregadinhos”, com o título honorífico de “gerentes”, eram como a maioria dos cuiabanos de antanho, descendentes de escravos, de negros e, até, de índios bravios. Portanto, só escolhiam filmes onde havia artistas negros ou aquele mulatinho mexicano, naturalizado americano, que muitos inventaram que ele era um herói de guerra de verdade até o recente desmentido pelo “New York Times”, sobre sua fuga/deserção do exército americano... Só faroestes e só ao gosto desses “gerentes”. O povo que se danava, como sempre. Enquanto nos grandes centros, eram lançamentos e mais lançamentos. Para se ter uma idéia, o legendário filme “...E o vento levou” tinha mais de 50 anos de lançamento no mundo quando passou em Cuiabá... Porém, o que me chamou as atenções nestes dias é que todo mundo tinha vergonha de ouvir, mesmo de longe, músicas sertanejas. Era até pecado que muitas jovens chegavam ao cúmulo de se confessar aos padres sobre essa “aberração” em ter ouvido uma música sertaneja. E, nos faroestes de 1949 até 60, somente filmes de quinta categoria exibiam aqueles caipiras dançando, nas fazendas, ao som de orgias, violões e tiros, com as pernas tortas, bêbados de doer e cair, aquelas danças, vergonhosas, repito, para a época! Pois, não é que mais de 50 anos depois, voltaram os serviços de alto-gritantes nas ruas de Cuiabá que possui Rádio, Jornais e TVS de altísssimas categorias, inclusive os satélites e as TVs à cabo, e as tais de músicas sertanejas, onde até dançam???!!!... De pernas abertas, igualzinho aos filmes de 1945???!!!... 50 anos depois! Há até clubes que exploram tais modismos aos jovens de hoje! Inversão de valores? Desespero? Falta de opções? FHC? FMI? Pobreza? 50 anos depois... Teve até presidente da república que disse que andamos só em carroças! Em tempo, nunca fui contra, e nem o sou, as músicas sertanejas e aos fatos. Citei a fotografia exata daqueles tempos. O povo é que tinha repulsa a tais músicas e fatos. Talvez, até por hipocrisia. Eu era e o sou radialista, também, desde aquela época e convivi com esse drama nas emissoras a que pertenci. Enfim, a grande vantagem do Cine Teatro Cuiabá, hoje desfigurado e com verbas esotéricas desviadas e que ninguém tem a coragem cívica de ir à fundo e denunciar para onde elas foram, após liberadas para a reforma do tal Cine Teatro Cuiabá, esqueleto de tapumes, com teias de aranhas do tempo, no centro de Cuiabá possui grandes momentos históricos! Dos banheiros à tela. De tantas histórias de morrer de rir e de chorar! Também estão em meu livro sobre Rádio, Jornais e TV nas décadas de 50 à 75, vácuo literário histórico! * PAULO ZAVIASKY é jornalista e colaborador do DIÁRIO. Escreve nesta coluna às quartas, sextas e domingos. E-mail: [email protected]

Edição EDIÇÃO 16964




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