ROBERTO B. DA SILVA SÁ
Senhor Ministro, escrevo esta Carta Aberta, após a leitura que fiz de textos produzidos por acadêmicos de Literatura Brasileira (2° ano de Letras), da Universidade em que leciono há duas décadas. A ementa da referida disciplina compreende estudos de nossa literatura, das origens ao período romântico. Com possibilidade de consulta bibliográfica, a produção dos textos se deu por conta de um trabalho realizado em sala de aula. A proposta do exercício, tendo quatro horas disponíveis, partiu do artigo "De volta ao passado", de César Benjamin (Folha de São Paulo, 13/06/2009). Ali, é dito que a Medida Provisória (MP) 458 se fosse sancionada como saiu do Congresso, estar-se-ia diante de uma volta ao passado. O ato se concretizou. No enunciado do trabalho que propus, afirmei que Benjamin, ao criticar o conteúdo da MP em pauta, enfatiza um problema que remonta o período colonial: o latifúndio; que no segundo parágrafo do artigo, o mesmo autor diz: "...na segunda metade do século XIX, permeando Império e República, o Brasil resolveu a questão da escravidão...". Depois disso, pedi comentários (livres, obviamente) acerca das afirmações de Benjamin. Em seguida, solicitei que fossem pontuados, também comentando, textos e autores da Literatura de Informação e do Barroco que abordassem os dois problemas acima destacados. Nada de excepcional; nada que obrigasse a "decoreba" da matéria. No entanto, os textos que a maioria - vítima do falido sistema educacional - produziu demandam urgentes reflexões. A estrutura linguística apresentada não é melhor do que a esperada produção textual de estudantes de 8ª série, quando a seriedade imperava no ensino. A cada ano, a falência da educação vai se escancarando. Já estamos em pleno caos. Longe de ser exceção, exemplifico o que estou dizendo por meio de dois fragmentos, transcritos fielmente: 1º) Desta maneira o tema é um assunto comum em épocas diversas por isso é tão natural que haja repetições, o que é contraditório, já que a repetição é a melhor figura da retórica nosso tema em questão já virou um clássico, assim como o passado literário brasileiro Cesar Benjamin afirma com tranquilidade que o Brasil na segunda metade do séc. 19 resolveu a questão da escravidão; 2º) "A condição colonial, nos três primeiros séc. da colonização portuguesa no Brasil 1822, travou se por meio de mecanismo que podem ser quantitativos, pois se traduzem em números de produção e circulação, isto é, cifras de bens e de força de trabalho como o Gregório de Matos 'Máquina Mercante"; Dentro do contexto previamente conhecido, é possível ao leitor supor alguma coisa desses enunciados; compreendê-los, jamais. Motivos: colagens textuais mal feitas e desconhecimento de regras elementares da língua; ou seja, aquelas que a escola ensinava e verificava o aprendizado. É verdade que, antes, muitos dos conteúdos tinham de ser assimilados pela memória. E qual era o problema? Essa habilidade que o MEC ridicularizou, quando impôs o vestibular unificado, também pode auxiliar no processo da crítica. Quando se decora, p. ex., a letra de Apesar de você, Sr. Ministro, de Chico Buarque, pode-se ter parte do caminho pavimentado para compreensão das tragédias históricas produzidas pela ditadura militar; ou não pode? Sem saudades das palmatórias e de outros métodos coercitivos, o fato é que rever o que funcionava na pedagogia de idos tempos parece ser obrigatório. A pedagogia atual está falida. Pior: contemplando antigas ordens das cartilhas do Banco Mundial, OMC e FMI, principalmente, mas tudo com roupagem nova, a meu ver, nenhuma das imposições político-pedagógicas do MEC está no caminho adequado. Dessas imposições, há uma excessiva pedagogização que enfatiza a prática escolar, desde o início dos cursos de licenciaturas, em detrimento do tempo de estudos de muitos elementos teóricos. Essa orientação pragmática do Ministério não tenho dúvidas fará que os problemas sejam acentuados. Penso que a transcrição dos dois fragmentos acima ilustra minha preocupação. Por isso, com a boa vontade que demonstra, não creio que o Senhor, Ministro, queira fazer papel de coveiro-mor da educação brasileira. E já que falo em passado escolar, de todas as revisões necessárias e eventuais retomadas, o ensino da língua portuguesa central para o aprendizado das demais disciplinas deverá retomar certo tradicionalismo, não descartando, sequer, a possibilidade do ensino de Latim. Hoje, muitos docentes, quando sabem o conteúdo daquilo que ministram, constrangem-se para dizer a um estudante a forma lingüística padronizada. É o vale-tudo da ditadura do linguisticamente correto. É a opção de classe social contrária à dos filhos dos trabalhadores, mas bem disfarçada de democrática. É o cerne do caos; já é indício de incomunicabilidade, pelo menos nos registros escritos. Pois bem. Até agora falei de questões pedagógicas. Todavia, precede a isso o urgente e verdadeiro resgate social do professor. Como os salários, em geral, são indecentes, pesquisas apontam que, para a educação, encaminham-se os piores alunos do ensino médio. Sabedores de suas limitações intelectuais, e quase não dispondo de tempo para os estudos, esses acadêmicos exigirão pouco em termos de remuneração profissional; porém, isso terá altíssimo preço ao futuro do país. Quem viver verá! Além dos salários, a desumana carga horária da maioria (três turnos de trabalho) inviabiliza o aprimoramento diário que passa por leituras diversas e diversificadas, incluindo a vasta produção bibliográfica especializada de cada área do conhecimento. Mais: é raro ver um professor frequentar (agora, sem o trema!) teatros, cinemas... É professor de cultura zerada. Enfim, o excesso de trabalho muitas vezes em condições completamente adversas, das quais se destaca a violência escolar tem levado educadores à dramática experiência de várias doenças físicas e mentais. É desolador! Diante do exposto, Senhor Ministro, sem compartilhar da lógica de ensino aligeirado e a distância, inserida na propaganda do MEC Para a educação melhorar, todos têm de participar, mas impulsionado pelo slogan em si, de minha parte, como cidadão e educador, reitero a necessidade de revisão geral dos encaminhamentos pedagógicos à educação, bem como os elementos estruturais da profissão, com destaque à dignificação salarial e à redução de encargos. Ao debate, Senhor Ministro! Saudações Acadêmicas. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ, Dr. em Jornalismo/USP. É Prof. de Literatura da UFMT
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