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ARTIGO
Terça-feira, 04 de Agosto de 2009, 22h:21

ROBERTO B. DA SILVA SÁ

Carta aberta ao ministro da Educação

Senhor Ministro, escrevo esta Carta Aberta, após a leitura que fiz de textos produzidos por acadêmicos de Literatura Brasileira (2° ano de Letras), da Universidade em que leciono há duas décadas. A ementa da referida disciplina compreende estudos de nossa literatura, das origens ao período romântico. Com possibilidade de consulta bibliográfica, a produção dos textos se deu por conta de um trabalho realizado em sala de aula. A proposta do exercício, tendo quatro horas disponíveis, partiu do artigo "De volta ao passado", de César Benjamin (Folha de São Paulo, 13/06/2009). Ali, é dito que a Medida Provisória (MP) 458 se fosse sancionada como saiu do Congresso, estar-se-ia diante de uma volta ao passado. O ato se concretizou. No enunciado do trabalho que propus, afirmei que Benjamin, ao criticar o conteúdo da MP em pauta, enfatiza um problema que remonta o período colonial: o latifúndio; que no segundo parágrafo do artigo, o mesmo autor diz: "...na segunda metade do século XIX, permeando Império e República, o Brasil resolveu a questão da escravidão...". Depois disso, pedi comentários (livres, obviamente) acerca das afirmações de Benjamin. Em seguida, solicitei que fossem pontuados, também comentando, textos e autores da Literatura de Informação e do Barroco que abordassem os dois problemas acima destacados. Nada de excepcional; nada que obrigasse a "decoreba" da matéria. No entanto, os textos que a maioria - vítima do falido sistema educacional - produziu demandam urgentes reflexões. A estrutura linguística apresentada não é melhor do que a esperada produção textual de estudantes de 8ª série, quando a seriedade imperava no ensino. A cada ano, a falência da educação vai se escancarando. Já estamos em pleno caos. Longe de ser exceção, exemplifico o que estou dizendo por meio de dois fragmentos, transcritos fielmente: 1º) “Desta maneira o tema é um assunto comum em épocas diversas por isso é tão natural que haja repetições, o que é contraditório, já que a repetição é a melhor figura da retórica nosso tema em questão já virou um clássico, assim como o passado literário brasileiro Cesar Benjamin afirma com tranquilidade que o Brasil na segunda metade do séc. 19 resolveu a questão da escravidão”; 2º) "A condição colonial, nos três primeiros séc. da colonização portuguesa no Brasil 1822, travou se por meio de mecanismo que podem ser quantitativos, pois se traduzem em números de produção e circulação, isto é, cifras de bens e de força de trabalho como o Gregório de Matos 'Máquina Mercante"; Dentro do contexto previamente conhecido, é possível ao leitor supor alguma coisa desses enunciados; compreendê-los, jamais. Motivos: colagens textuais mal feitas e desconhecimento de regras elementares da língua; ou seja, aquelas que a escola ensinava e verificava o aprendizado. É verdade que, antes, muitos dos conteúdos tinham de ser assimilados pela memória. E qual era o problema? Essa habilidade que o MEC ridicularizou, quando impôs o vestibular unificado, também pode auxiliar no processo da crítica. Quando se “decora”, p. ex., a letra de “Apesar de você”, Sr. Ministro, de Chico Buarque, pode-se ter parte do caminho pavimentado para compreensão das tragédias históricas produzidas pela ditadura militar; ou não pode? Sem saudades das palmatórias e de outros métodos coercitivos, o fato é que rever o que funcionava na pedagogia de idos tempos parece ser obrigatório. A pedagogia atual está falida. Pior: contemplando antigas ordens das cartilhas do Banco Mundial, OMC e FMI, principalmente, mas tudo com roupagem nova, a meu ver, nenhuma das imposições político-pedagógicas do MEC está no caminho adequado. Dessas imposições, há uma excessiva pedagogização que enfatiza a prática escolar, desde o início dos cursos de licenciaturas, em detrimento do tempo de estudos de muitos elementos teóricos. Essa orientação pragmática do Ministério – não tenho dúvidas – fará que os problemas sejam acentuados. Penso que a transcrição dos dois fragmentos acima ilustra minha preocupação. Por isso, com a boa vontade que demonstra, não creio que o Senhor, Ministro, queira fazer papel de coveiro-mor da educação brasileira. E já que falo em passado escolar, de todas as revisões necessárias e eventuais retomadas, o ensino da língua portuguesa – central para o aprendizado das demais disciplinas – deverá retomar certo tradicionalismo, não descartando, sequer, a possibilidade do ensino de Latim. Hoje, muitos docentes, quando sabem o conteúdo daquilo que ministram, constrangem-se para dizer a um estudante a forma lingüística padronizada. É o vale-tudo da ditadura do “linguisticamente correto”. É a opção de classe social contrária à dos filhos dos trabalhadores, mas bem disfarçada de democrática. É o cerne do caos; já é indício de incomunicabilidade, pelo menos nos registros escritos. Pois bem. Até agora falei de questões pedagógicas. Todavia, precede a isso o urgente e verdadeiro resgate social do professor. Como os salários, em geral, são indecentes, pesquisas apontam que, para a educação, encaminham-se os piores alunos do ensino médio. Sabedores de suas limitações intelectuais, e quase não dispondo de tempo para os estudos, esses acadêmicos exigirão pouco em termos de remuneração profissional; porém, isso terá altíssimo preço ao futuro do país. Quem viver verá! Além dos salários, a desumana carga horária da maioria (três turnos de trabalho) inviabiliza o aprimoramento diário que passa por leituras diversas e diversificadas, incluindo a vasta produção bibliográfica especializada de cada área do conhecimento. Mais: é raro ver um professor frequentar (agora, sem o trema!) teatros, cinemas... É professor de cultura zerada. Enfim, o excesso de trabalho – muitas vezes em condições completamente adversas, das quais se destaca a violência escolar – tem levado educadores à dramática experiência de várias doenças físicas e mentais. É desolador! Diante do exposto, Senhor Ministro, sem compartilhar da lógica de ensino aligeirado e a distância, inserida na propaganda do MEC “Para a educação melhorar, todos têm de participar”, mas impulsionado pelo slogan em si, de minha parte, como cidadão e educador, reitero a necessidade de revisão geral dos encaminhamentos pedagógicos à educação, bem como os elementos estruturais da profissão, com destaque à dignificação salarial e à redução de encargos. Ao debate, Senhor Ministro! Saudações Acadêmicas. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ, Dr. em Jornalismo/USP. É Prof. de Literatura da UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16965




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