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ARTIGO
Terça-feira, 24 de Março de 2009, 20h:54

ROBERTO B. DA SILVA SÁ

Capitalismo empacotado

As reflexões que ora exponho deveriam ser feitas por economistas, principalmente por doutores de programas de pós-graduação na área. Contudo, mesmo diante de tantas bombas econômicas explodindo nas sociedades capitalistas - inclusive no Brasil, do qual Mato Grosso faz parte com o agronegócio -, a maioria dos economistas está muda. Motivo: suas fracassadas, mas convenientes, teorias pós-modernas - âncoras acadêmicas do neoliberalismo (versão atual do capitalismo em pacotes) - inviabilizam análises consistentes. Por isso, o silêncio tem sido o que restou aos que jogaram fora antigas lições de pensadores sérios do sistema capitalista. Em termos acadêmicos, é a vigência do ridículo aos velhos doutores e o feliz infantilismo aos mais jovens e recém formados! Feito o registro, adianto que o artigo de hoje nasceu por conta de um conjunto de tolices inseridas na matéria de capa da Revista Veja (Ed. 2104, nº 11) que circulou semana passada. Ali, buscou-se acalmar seus fiéis leitores, dizendo que "a intervenção do governo dos EUA e a quase estatização da economia não vão criar um... Camarada Obama". Já por esse começo, não se poderia estranhar a repugnante construção: "a busca pela felicidade humana é nobre, mas traiçoeira", em complemento a um discurso - pasmem - de Lula, ao apontar a necessidade de todos - depois da crise - se preocuparem com o ser humano, não importando que ordem econômica e social possa vir (p. 89). Antes, mas na mesma linha, a revista já dissera que "...é melhor um capitalismo em crise do que um socialismo em flor" (p. 86). Porém, num descuido, confirmou um temor: "Ninguém sabe exatamente aonde esta crise vai, mas pouca gente acha que já esteja perto do fim" (p. 88). De minha parte, como não joguei fora os pensadores clássicos, muito menos o maior de todos eles, fui buscar no Dicionário do Pensamento Marxista, editado por Tom Bottomore (Jorge Zaahar Editora), uma síntese possível para o momento vivido. Da busca, destaco dois longos verbetes: 1º) "crise da sociedade capitalista"; 2º) "crises econômicas". Compartilho fragmentos de ambos para auxiliar em reflexões e eventuais conclusões. Sobre o primeiro, é dito que é preciso "...fazer distinção entre, de um lado, crises ou colapsos parciais e, de outro, crises que conduzem à transformação de uma sociedade... As primeiras referem-se a fenômenos como os ciclos econômicos que envolvem surtos de prosperidade aparentemente intermináveis, seguidos de graves declínios da atividade econômica e são uma fase crônica do capitalismo. Já as crise do segundo tipo traduzem o enfraquecimento do princípio organizador ou nuclear de uma sociedade, isto é, a erosão ou destruição daquelas relações societais que determinam o alcance e os limites da transformação da (entre outras coisas) atividade econômica e política (...)". No segundo verbete, está registrado que, "ao examinar as teorias da crise, é preciso distinguir as crises gerais - que envolvem um colapso generalizado das relações econômicas e políticas de reprodução - das crises parciais e dos ciclos econômicos - que constituem um traço regular da história do capitalismo. Na produção capitalista, o desejo individual de lucro colide periodicamente com a necessidade objetiva de uma divisão social do trabalho. As crises parciais e os ciclos econômicos são apenas o método intrínseco ao sistema de reintegrar esse desejo e essa necessidade. Quando o sistema é saudável, recupera-se rapidamente de suas convulsões. Quanto menos sadio for, porém, mais prolongadas se tornam as convalescenças, mais anêmicas as recuperações e maior é a possibilidade de que ele ingresse numa longa fase de depressão (...)". Seja uma ou outra a situação, o velho Marx, lembrando novamente uma construção de César Benjamim, "manda lembranças" a toda gente do aqui e agora. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é Dr. em Jornalismo/USP. Prof. de Literatura da UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16964




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