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ARTIGO
Segunda-feira, 21 de Maio de 2012, 20h:16

LORENZO FALCÃO

Bromidrose ou cecê

Voltemos aos tempos da Minâncora. Cecececererececê. Seis léguas era a distância exata de Cuiabá até o Teixerinha, sítio do meu avô, Chô Bento. Lugar mais maravilhoso do mundo para quem teve uma infância feliz. Anos 60. Na Kombi, lotação que rasgava a estrada de terra trepidante, no banco de trás, a ansiedade para chegar logo arrasava comigo. Mas, algo diferente pairava no ar. Um cheiro forte que ardia as narinas. Vinha de um senhor humilde de chapéu de palha que estava ao meu lado. Bem, a pomada Minâncora só vim conhecer muito tempo depois... quando passei a morrer de medo de ser portador daquele odor desagradável que faz os outros nos fuzilarem com o olhar e se afastarem, como o diabo foge da cruz. Quer coisa mais chata do que estar com a sovaqueira fedida? Mais desagradável, mas mais desagradável do estar com cecê, é ter alguém com um futum brabo bem próximo. Não! Raciocinando friamente, é muito pior o cecê dos outros do que o nosso. Ora, vai dizer que o seu sovaco fedido é mais fedido ou igual ao sovaco fedido dos outros? Claro que não... o dos outros é sempre muito mais podre. E não tem conversa! Cecê é algo preocupante. Não é à toa que as noivas carregam o tradicional buquê de flores. Sim, eles eram utilizados para disfarçar ou amenizar o odor que exalava das axilas nervosas. A bromidrose (nome científico do cecê) pode ocorrer nos pés e axilas, causado pelo suor liberado das glândulas sudoríparas. Com o abafamento ele se decompõe e aí proliferam-se as bactérias e fungos... O mundo conheceu o desodorante depois da Segunda Guerra Mundial e, a partir daí, até que deu um alívio... Tenho uma amiga querida que relembra seus tempos de adolescência na fazenda. Lá tinha um peão, um desses sujeitos enormes e com impressionante força bruta. Era meio êpa e por isso ficava em casa fazendo os serviços mais pesados. E o cara era sempre acionado para passar pano na imensa sala da fazenda. Ficava um brinco. Tudo limpinho, o piso até refletia os raios solares que entravam pelas janelas. Depois de passar o pano, o difícil era passar o cheiro do cecê dele permanecia impregnando no ambiente por muito tempo. Alguns espaços são terríveis de se compartilhar com pessoas com cecê. Um elevador, o transporte coletivo... Mas, sentar-se ao lado de alguém com o odor numa viagem de avião... argh! Se a viagem for internacional, então, perdoem a palavra, mas você tá fudido. E tem um papo sobre as emanações axilares que não deve ter fundamentação científica, mas, vocês sabem: a voz do povo é a voz de Deus e Deus falou, água parou. Então, dizem que quando alguém tá com cecê, a última coisa que se deve fazer é repugnar o odor. Porque é fatal, a praga prega. Cecê prega; prega, sim... Daí que é difícil... a pessoa está ali do seu lado, fedendo pra catiça, e você tem que resistir à fedentina e ainda fingir que não está nem aí. LORENZO FALCÃO é editor do DC Ilustrado tyrannusmelancholicus.blogspot.com

Edição EDIÇÃO 16966




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