O maior país democrático do mundo (definição de um empresário indiano) A Índia é o país dos assombros intermináveis. Por onde quer que a gente ande, até onde a vista alcança, há sempre um impacto à espera. O bombardeio sensorial é ininterrupto. Repetindo o que disse outro dia: a Índia fornece, na verdade, a descrição mais próxima que alguém conseguiria, provavelmente, conceber de outro planeta povoado por inteligências. A idéia que passa é de um mundo peculiar, cheio de fascínios e mistérios, encaixado dentro do nosso mundo. No domínio dos sons, das cores e aromas, o país parece emergir de um conto sem começo e sem fim das mil e uma noites. O assombro provocado pela seqüência interminável das visões desconcertantes, os contrastes atordoantes, o funcionamento das coisas rotineiras trazem uma conclusão: este é, certeiramente, o país das improbabilidades possíveis. Cabe, em seguida, registrar que o país dos incríveis contrastes coloca-nos diante de cifras e dados significativos, informações até certo ponto extremamente animadoras, quando o foco da análise se desloca para o lado econômico e social. Focando as atenções em dados econômicos disponíveis, o crescimento global da Índia, a uma taxa média superior a 5% ao ano (8% no caso da indústria), documenta a salutar disposição indiana de desgarrar-se das amarras do subdesenvolvimento. Aos investidores acena-se com o potencial de um mercado de avantajadas proporções. Arrojada política de incentivos, com reduções gradativas e substanciais de impostos e taxas, vem sendo há anos incrementada. Os avanços na aquisição de tecnologia de ponta são relevantes. Os índices de expansão das exportações são respeitáveis. A rúpia, em alguns países, já é moeda conversível. Ta ouvindo real? As aplicações em novos e rendosos negócios movimentam cifras expressivas. O dinheiro chega de tudo quanto é lugar. Dólar, euro, iene, libra, dinheiro malaio, dinheiro cingapuriano, por aí. Os sinais de obras são visíveis em todos os lugares. Há uma efervescência criativa fácil de ser detectada. Sente-se no ar, também, o reconhecimento internacional de que a Índia, apesar dos pesares, é mercado promissor, em cujo futuro vale a pena apostar. A nação indiana se orgulha também da condição de maior país democrático do mundo. Os indianos enchem a boca para proclamar tal coisa. A definição ufanista, propagada numa espécie de exercício cívico constante, abarca realidade complexa em matéria de convivência humana. Há uma profusão de partidos políticos. São incontáveis os cultos religiosos, alguns deles extremamente hostis entre si, consagrados a 330 milhões de divindades. São os idiomas, os dialetos, as etnias, as castas e sub-castas, algumas mergulhadas num cotidiano ultrajante. Um universo amplo tocado por inspirações, sentimentos, motivações variadas que só fazem aguçar o quadro geral das disparidades. São mais de um bilhão de habitantes. Uma classe média superior a 300 milhões. E outro tanto de seres humanos em estado de miséria absurda, os intocáveis. A parcela de milionários é ínfima nessa gigantesca soma. Os contrastes alarmam. De um lado, opulência nababesca. De outro, a miséria, por assim dizer, ao rés do chão. Chega, em certos momentos, a ser assustadora, mesmo para os padrões do terceiro mundo. Mas, com tudo isso, garantem os indianos, a democracia funciona. A liberdade de opinião e os direitos essenciais afirmam - são garantidos. Integrar tudo isso na vanguarda do pensamento, montar um arcabouço conceitual coerente, fazer as coisas funcionarem, demanda trabalho perseverante e profícuo que a filosofia de Gandhi ajuda a entender. É desse modo que o país que acredita em milagres concebe seu milagre de engenharia política. * CESAR VANUCCI, jornalista
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