PAULO C. DE SOUZA
O filme Avatar é uma produção de efeitos especiais sem nenhum precedente no cinema. Quanto ao conteúdo, muitas interpretações são possíveis. Uma das mensagens que o filme destaca é a nossa capacidade de invadir outros mundos para saquear suas riquezas. O contexto do filme lembra uma brilhante passagem do livro de Hannan Arendt As origens do totalitarismo - em que as nações militarizadas acreditam que subjugar outros países é o único caminho para perpetuarem suas influências econômicas. E talvez seja. No livro, a anexação de planetas, é uma metáfora utilizada por alguns teóricos do imperialismo. Nossa incursão na lua Pandora se resume na tentativa de explorar um mineral precioso. Entretanto, a prospecção somente poderá ser feita com ameaças aos seus evoluídos alienígenas e destruição da extasiante ecologia. Todavia, isso não será problema, no filme, as regras para aumentar capital e valorizar ações superam preceitos morais. Para nosso conforto é somente no filme que esse comportamento censurável ocorre! Os elementos do filme: um grupo de mercadores; um burocrata insano movido pela cobiça; um general obcecado por sangue; uma bióloga prodigiosa que entende como Pandora conecta toda criatura em uma intricada e fascinante teia vital; uma paisagem exuberante capaz de tirar a fôlego; e, das dissensões entre os humanos emerge uma semi-criatura capaz de unir os nativos numa relutante, mas justa insurreição. De um lado estão os impostores humanos com seu arsenal destrutivo, do outro, a habilidade das criaturas azuis e sua profunda simbiose com a natureza. Como em abundantes exemplos da nossa história, nações bélicas interessadas em expandir domínios econômicos fazem alianças e mobilizam soldados para rivalizar territórios comerciais. A história é rica de exemplos antigos e recentes de como o capital financia a guerra, de como dissimula seus motivos, distorcem fatos e como massifica mentes em nome de um honra patriótica. Guerras têm sido travadas para assegurar o acesso às riquezas de outros povos: um dos pilares da nossa geopolítica mundial e do tênue equilíbrio na hierarquia econômica que dela deriva. Voltando à Pandora na constelação de Alfa Centauri, como é óbvio em todo filme de ficção, há coisas não explicadas como a origem da energia para atravessar uma nave tripulada à distância de 37 trilhões de quilômetros. Esquecendo esse detalhe, o enredo traduz a usurpação e o extermínio de nativos, com feito nas colônias terráqueas. Aliás, porque os nativos de Pandora simplesmente não sucumbem ao poderio das armas e simplesmente aceitam as barganhas medíocres propostos pelo grupo explorador, jeans e cerveja como diz um personagem? Talvez, porque estejam interessados em defender uma maldita árvore. Essa resposta foi uma sentença repulsiva de uma fala humana demente e boçal. Enquanto terráqueos deixam à margem multidões indigentes e seguem ciclos suicidas de acumulação e consumo, em Pandora, um estranho foi aceito entre os alienígenas depois de provar seu supremo valor às outras espécies. Talvez poucos de nós recebêssemos tal deferência. Nos últimos dias em cartaz e para quem ainda não viu o filme: será que os humanos triunfarão numa batalha cósmica e estenderão suas colônias a outro mundo? * PAULO CÉZAR DE SOUZA é Mestre em Economia e gestor governamental
[email protected]