Não dá pra deixar passar em branco a percepção da grande crise institucional pela qual está passando o Brasil. Neste momento, estão na ponta da crise o ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, Tarso Genro, ministro da Justiça, os magistrados federais do país, os procuradores federais, o Ministério Público Federal, a Polícia Federal, a Ordem dos Advogados do Brasil e, em última instância, a perplexa sociedade brasileira. O que está por trás dessa confusão? A resposta é simplíssima: poder político e poder financeiro. Num primeiro momento, a crise está entre o presidente do Supremo Tribunal Federal e o ministro da Justiça. Num segundo momento, a crise nasce dentro do próprio poder Executivo, na disputa de bastidores pela sucessão do presidente Lula. Ele deu sinais de que deseja a ministra-chefe da Casa Civil para substituí-lo. Para isso, deu-lhe a condução do PAC-Programa de Aceleração do Crescimento, que envolve bilhões de reais e atende a todas as classes sociais, ao contrário da consagrada política social do governo, que só atende as classes pobres e reflete como concentração de renda nos ricos. A classe média ficou de fora do processo econômico e político do país, esvaziada pelas políticas públicas vigentes no governo do PT. O PAC a atende. Porém, o ministro Tarso Genro, um petista histórico e radical que comanda a Polícia Federal com mão de ferro, também quer ser presidente e precisa derrubar a candidatura da ministra Dilma. Por isso, ele tem usado tanto a Polícia Federal e de maneira tão espetacularizada, para chamar a atenção sobre si, como o moralizador do país. Essa é uma crise que promete enfraquecer o governo, já fraco por si só. No seu discurso de posse, o ministro Gilmar Mendes bateu muito forte no estado de direito democrático e condenou o estado policial instalado no Brasil. Quando a Polícia Federal, de mãos dadas com o Ministério Público e a mídia, criaram o espetáculo de prisão do banqueiro Daniel Dantas, Tarso Genro sabia das fragilidades do inquérito policial que provocaria as sucessivas libertações pelo Supremo Tribunal Federal. Quando o próprio presidente do tribunal avocou a si as libertações, estava criada a crise desejada pelo ministro da Justiça. Daí para a frente, foi só uma questão de saber usar o melhor discurso para a mídia. Do ponto de vista da opinião pública Gilmar Mendes sofreu desgastes e Tarso Genro aproveitou-se da indignação popular contra Dantas, Naji Nahas, terceiros e Celso Pita. Ficou a sensação de que se fez injustiça. Na sua defesa, Gilmar Mendes criticou a Polícia Federal, ao que Tarso Genro criticou o ministro e estabeleceu-se uma crise institucional entre poderes. Aliás, a crise é altamente favorável ao ministro da Justiça, porque as luzes em sua direção e as denúncias convenientes de que Dantas e sua quadrilha contactaram gabinetes do Palácio do Planalto, atingiram a ministra Dilma Roussef. O assunto continua amanhã, mas o que temos é uma luta de poder entre poderes da República: o STF pela justiça, apesar das contradições. E o ministro da Justiça conspirando em busca de uma candidatura a presidente da República em 2010. Dantas: bom, esse é só um detalhe! * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e das revistas RDM e Centro-Oeste
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