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Cuiabá MT, Quarta-feira, 24 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 28 de Junho de 2014, 17h:20

MÁRCIO COIMBRA

As lições do Iraque

Obama está diante de uma situação delicada. Diante de fracassos estratégicos no Iraque, o país se tornou novamente uma peça sensível no tabuleiro de forças do Oriente Médio. Os fatos são claros. A intervenção que retirou Saddam Hussein do poder acabou levando os xiitas ao comando do país, mudando a balança de forças que até então governava Bagdá. Com a eleição do atual primeiro-ministro, Nouri al-Maliki em 2006, saiu a minoria sunita e chegou a maioria xiita. A estratégia dos Estados Unidos era retirar suas forças do Iraque aos poucos, deixando um contingente residual até a consolidação das instituições, impedindo assim um levante contra o novo governo. George W. Bush iniciou a retirada em 2008, com fim previsto para 2011. O processo ocorreu normalmente, mas quando chegou o momento de Obama negociar a permanência de forças residuais, não houve acordo com Maliki. O Iraque, agora xiita, preferia equilibrar a balança de poder na região, aproximando-se do Irã, também xiita, e distanciando-se do Ocidente. Muitos dizem que faltou vontade ou habilidade política da Casa Branca para fazer a negociação avançar. O fato de Obama não ter conseguido chegar a um acordo com Maliki resultou na retirada total das forças americanas. O país passou a cuidar de si mesmo, sendo o único responsável por sua própria segurança. Mas os erros de Obama se ampliaram. Houve a desastrada intervenção na Líbia, que jogou o país no caos da guerra civil, onde tribos se enfrentam até hoje para ocupar o poder. Depois veio a questão síria, com o desejo de intervir para retirar Assad do comando, o que poderia ter jogado Damasco na mesma situação perigosa onde está a Líbia atualmente. O que estes exemplos deixam claro é que não pode haver, de parte das forças ocidentais, intervenções sem qualquer planejamento estratégico de futuro. Iraque e Líbia são a prova mais cabal disso. No Egito, onde houve apoio para a destituição de Mubarak, em pouco tempo ficou claro que não havia confiança na figura de Morsi, abrindo-se espaço para chegada de Sissi, que reeditará o governo militar anterior. O Egito, entretanto, ao contrário da Síria, Líbia ou Iraque, possui uma força militar independente e institucional. O mesmo acontece na Turquia, que tem conseguido blindar suas instituições com a força dos militares. O avanço dos grupos rebeldes sunitas no Iraque, associados a outras milícias radicais que chegam da Síria, era apenas uma questão de tempo, pois sem as tropas americanas o país tornou-se muito vulnerável. Hoje, para manter Maliki no poder e evitar a chegada de um governo islâmico radical liderado pelo ISIS, os xiitas contam com o apoio dos aiatolás iranianos e dos Estados Unidos, curiosamente unidos do mesmo lado contra um inimigo comum. A questão do Iraque também divide opiniões nos Estados Unidos. Enquanto o libertário Rand Paul diz que a intervenção não foi bem calculada, o conservador Dick Cheney diz que foi a opção correta, mas malcoordenada por Obama em seus momentos finais. De uma forma ou de outra, a situação atual deixa muito claro que intervenções desastradas como na Líbia, ou como estava se desenhando na Síria, precisam ser evitadas e um erro de cálculo como no Iraque, pode colocar tudo a perder. Cada vez fica mais claro que o conceito de democracia ocidental tem dificuldade para se instalar na região e forçar esta situação torna estes países mais vulneráveis e suscetíveis a movimentos insurgentes. A Primavera Árabe é um grande alerta neste sentido. Os resultados do Egito deveriam pautar os movimentos do Ocidente na região. Criar novas Líbias somente tornará a situação mais insegura. Ajudar rebeldes radicais contra Assad na Síria somente levará insegurança para as portas da Turquia. No Iraque, agora é preciso arrumar a casa e evitar o caos. Uma brutal guerra civil já começou e logo pode chegar até Bagdá. *MÁRCIO COIMBRA - consultor político, de Washington, DC [email protected]

Edição EDIÇÃO 16968




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