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Cuiabá MT, Segunda-feira, 15 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 03 de Abril de 2010, 13h:35

MÁRIO MARQUES DE ALMEIDA

Arte de embrulhar pedras

Quando preciso ensimesmar, dar aquela volta por dentro, encabrestar a língua e oxigenar o meu eu, rezo no silêncio da poesia de Manoel de Barros. Recolho-me em seus versos e começo a querer entender a alegria das pedras que rolam no quintal do poeta. É esse exatamente o meu fazer nesta sexta-feira em que apenas cato letras para servir neste domingo, sem poder embalá-las para presente como Barros faz com as pedras, que viram ovos de páscoa em suas mãos abençoadas. De dedicado e sutil oleiro do verbo. Escultor do vernáculo, porém sem se ater religiosamente às regras gramaticais. Sem essa tola preocupação que me atormenta se estou ou não colocando corretamente os pingos nos is. Ele pinga os is no pingo e lagartixa nas vírgulas. Como invejo e admiro sua transgressão com o modo de palavrear! Solto, leve e livre nas abas do tempo. Sem sofrer com a maldita escravidão da gramática e ortografia. Com suas confusas mudanças que mais complicam que explicam. Mas, afinal, só ele consegue dar asas aos sapos e fazer as rãs voarem. Coitado de mim, que mal consigo dar meus pulos. Daí, para esse poeta maior, ser moleza transformar cascalho em bombom fino. E sua criação continua aprimorada prestes ele completar 95 anos de vida. Ele que veio ao mundo em 1916 no Beco da Marinha, no bairro do Porto, nesta Cuiabá quase trezentona. Cidade onde, aliás, é pouco reverenciado pelos chamados donos da cultura local. Que se apoderam desses nichos (fundações e secretarias) e se aferram sem dó às respectivas verbas como se fossem carrapatos em lombo de anta. E ditam modas e modismos a esmo. Ficam até doce! Falando nisso, antes que ser chamada de Capital da Copa do Pantanal, Cidade Verde, Portal da Amazônia, como já foi antes cultuada orgulhosamente e com exaltado ufanismo patrioteiro - isto é, quando desbravamento não era sinônimo de devastação ambiental -, Cuiabá, por ser berço de um poeta que fecunda poemas que prosam na umidade pantaneira, deveria ter nas suas entradas e entranhas ainda que fosse um pequeno painel,uma plaquetinha que seja afirmando: AQUI NASCEU MANOEL DE BARROS. Quando nada, ele que mesmo aplaudido pela crítica como o maior poeta vivo da língua portuguesa contemporânea, não tem busto nem estátuas por aqui, merece a lembrança por extrair destas bandas a sua temática simples de olhar o chão. De andar curvado mirando as coisas aparentemente insignificantes e que ganham relevo e viram majestades na ponta do seu lápis (é assim que ele escreve, como se fizesse do singelo lápis um cinzel esculpindo frases sobre o papel, feito um Aleijadinho da literatura). A sua matéria-prima literária vem com cheiro, gosto, cara e som da terra molhada do Pantanal, do nosso Pantanal que tem no rio Cuiabá/Paraguai sua principal artéria. Sangrando, infelizmente, a planura pantaneira com detritos colhidos sem tratamento adequado nas cidades plantadas em suas margens. Lixo depurado pela poesia do bom Manoel. Ainda bem! É, pois, a partir daqui que Manoel de Barros se universaliza em pé de igualdade com outros grandes na moldagem do idioma, mestres na transmutação da palavra em imagens ímpares. Fazendo o mesmo com as imagens, que eles reviram pelo avesso, reencarnadas em verso e prosa. Forjando beleza na simplicidade. É com essa forma que Deus fabricou a poucos, que Manoel de Barros se funde no mesmo barro de que foi feito Carlos Drummond de Andrade, Thiago de Mello, Cora Coralina ou Fernando Pessoa em seus delírios pelas ruas de Lisboa. Quando sentava versos nas praças. Boa Páscoa! Mário Marques de Almeida é diretor do site e jornal Página Única. [email protected]

Edição EDIÇÃO 16962




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