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ARTIGO
Terça-feira, 23 de Outubro de 2012, 21h:57

ROBERTO B. DA SILVA SÁ

Alinhados e enquadrados

No final desta semana, eleitores de várias cidades retornarão às urnas. Cuiabá é uma dessas. Dois candidatos – um do PSB, outro do PT – apertam o passo para chegar ao Paço Municipal. Para isso, algumas “armas” passaram a ser mais expostas do que outras. Uma delas – quiçá a central – é o discurso do “alinhamento político”. Antes de falar disso, permitam-me fazer uma regressão a minha infância. Como nasci em março de 61, tive a infeliz oportunidade de vivenciar infantilmente os duros tempos do golpe militar, iniciado também em março, mas de 64. Eu tinha três anos. Todavia, parece que, desde cedo, a política me interessava. Sem compreender o que significava golpe militar, eu ouvia falar de uma disputa entre arenistas (da ARENA: Aliança Renovadora Nacional) e medebistas (do MDB: Movimento Democrático Brasileiro). Como é sabido, embora a lei (AI-2, de 1965) “permitisse” o pluripartidarismo, na prática, por conta de ardilosas manobras, apenas o bipartidarismo era possível no Brasil; e isso durou doze anos: de 1966 a 79. Eu já estava mais “crescidinho”. Contudo, essa situação de “disputa” durante a ditadura militar, aparentemente de partidos opostos, foi criada e, é claro, consentida pelos próprios fardados. Isso era tão verdadeiro que se veiculava a seguinte anedota: no Brasil, havia "o partido do sim" (a ARENA) e o "partido do sim, senhor" (o MDB). Sugestão óbvia: não havia oposição de fato, mas apenas uma posição de consentimento e outra de submissão. Fosse como fosse, eu sentia no espaço doméstico (nada de política era dito) simpatia pela turma da dita “oposição”. Logo, eu também já recusava o discurso da turma da ditadura. Por isso, e por tabela (as crianças aprendem muito por tabela), fui tomando repulsa pelo discurso que pregava o alinhamento político aos donos do poder (os ditadores), como única forma de salvação do Brasil. Assim, embora eu não soubesse ainda o que era um discurso propriamente dito, eu já sabia o que era repulsa ao discurso do alinhamento. Por tudo isso, ouvir – hoje – alguém se ancorar no velho e alienante discurso do “alinhamento político” só me traz as piores lembranças da infância. A lógica do alinhamento – antes de ser antidemocrática – é desrespeitosa e agressiva à inteligência das pessoas. Só os políticos de berço autoritário – em geral, são os mesmos que apostam na extrema e produzida ignorância de seus eleitores – é que vomitam na cara do povo esse discurso politicamente tão desqualificado. Mas para piorar tudo, num quadro de intensa degradação política, o tal do “alinhamento” nem se sustenta nessa eleição. Em Cuiabá, ambos os candidatos pertencem ao mesmo tronco político; aliás, recheado de corrupção e autoritarismo. Logo, essa “disputa” se dá entre o seis e o meia-dúzia. Aqueles números dos registros das duas candidaturas (13 e 40) são vazios até mesmo de simbologia elementar. Na essência, ambos os candidatos, assim como seus ardorosos seguidores, não estão apenas alinhados; estão lamentavelmente enquadrados pela mesma abominável vertente política. E o que significa isso? Pelo menos duas coisas. A primeira é que quem emite tal discurso, inadvertidamente, esquece de um velho ditado dos tempos da vovó: “diga-me com quem andas e dir-te-ei quem és”. Ah, isso conservador? Que seja! A segunda é que ambos cumprirão todas as ordens e desordens do poder central; ou seja, no limite, eles pensam que pensam. Por isso, como os ventríloquos, até falam como se falassem por si próprios. Mas gente alinhada e enquadrada não pensa por si. Mas não mesmo! * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. em Jornalismo/USP; prof. de Literatura/UFMT

Edição EDIÇÃO 16966




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