ARTIGO
Terça-feira, 21 de Agosto de 2012, 21h:44
A
A
HELSON FRANÇA
Agrofloresta para que?
Há duas semanas estive na propriedade de um grande camarada, agricultor, que mora em Chapada dos Guimarães. Não foi a primeira vez que lá estive, mas foi a vez que mais saí impressionado. Explico. O camarada é um desses caras extremamente boa praça, simples, simpático, paciente. Na sua propriedade, situada no interior da mata e nas proximidades de uma exuberante cachoeira, ele cultiva o que se convencionou de chamar de agrofloresta (um método agrícola que procura imitar a sucessão natural de espécies que ocorre nas florestas). São vários canteiros, e em cada um se encontra uma infinidade de vegetais plantados, frutíferos ou não, que crescem um ao lado do outro, em harmonia. Você encontra pé de abacate ao lado de uma bananeira, que fica ao lado de um tomateiro, que fica ao lado de uma plantação de alface e assim por diante. Tudo isso sem usar nenhum tipo de fertilizante que não tenha vindo dali, da própria natureza. Sim, os adubos são formados por folhas, capins, restos de frutas e outros compostos estritamente orgânicos. Digo que fiquei impressionado desta última vez, pois pude ver a beleza em que se encontrava a sua agrofloresta desde a última visita, há quase quatro meses. Aos montes, era possível ver cachos de bananas enormes, pés de alface grandiosos e com um verde reluzente, espécies dos mais diversos tipos exibindo uma qualidade sem igual, algumas prontas para serem colhidas, outras quase. Parte da plantação da agrofloresta do agricultor abastece o mercado local e cidades próximas, além de restaurantes de comida natural em Cuiabá. Perguntei a ele qual, de fato, era o entrave em se expandir esse tipo de produção pelo Estado, visto que pessoas andam adoecendo (outras até morrendo) devido à alta exposição aos agrotóxicos. Estudos do Instituto de Saúde Coletiva da UFMT, apontam que o Estado é o que mais consome pesticidas no mundo. É um mito achar que só se produz em grande escala com o uso de pesticidas. O problema é muito mais complexo. Basta observar o grande número de produtores inseridos na política, nos seus vários níveis. A indústria de pesticidas, que fatura bilhões todos os anos, e os produtores rurais caminham juntos. Manter esse modelo significa manter vivo essa estrutura de poder, resumiu. Porém, diante de um cenário tão desolador, é possível ver avanços. No Estado, no Brasil e no mundo o movimento agroflorestal vem ganhando força. Mas enquanto as pessoas não passarem a cobrar dos seus representantes por uma vida mais saudável, continuaremos a ser envenenados diariamente por um bom tempo ainda. HELSON FRANÇA é repórter