Tenho conversado muito com pessoas sobre a reação dos jovens diante das contradições da sociedade atual em que vivem. É muito pesado o fardo dessa garotada. De um lado, são educados fora da presença permanente da família. Saem cedo para a escola, lá têm seus grupos, voltam, se enfurnam no quarto ouvindo som, navegando na internet ou pendurados no celular. A internet tem um mundo muito particular com os sites de relacionamento como o orkut, por exemplo, ou MSN, de bate-papo. Fora de casa, eles têm o shopping center, onde vivem uma vida de exposição pública e de consumo. São válvulas de escape do seu mundo de confinamento escolar e doméstico. Mas a questão que tenho colocado, é imaginar como os jovens vêem o mundo dos adultos que os cerca e determina o seu próprio. Perguntei o que muitos pais sentem diante desse modo de viver dos filhos, onde os grupos de relacionamento valem mais do que o vinculo familiar. E mais: como esses jovens reagem a esse mundo de corrupção que deságua diariamente na televisão e no noticiário dos sites. Ninguém sabe responder ao certo. Acabei entrando um pouco no universo dos jovens na internet, escutando trechos de suas conversas e avaliando seu comportamento e linguagem. Na linguagem, eles barbarizam a língua pátria formal. Usam expressões muito particulares que sintetizam as principais idéias. É um mundo próprio, diferente do mundo dos adultos, e onde eles depositam as suas descrenças e a indiferença à corrupção, a pouca eficiência do Estado, as desigualdades sociais vista pelo ângulo dos ricos e dos pobres. De um modo inconsciente, os jovens estão se descolando das contradições dos adultos e criando um mundo novo, onde expressões (retiradas de caixas de recado do orkut, algumas com até 3 mil recados), como to kereno mais n ta dando bjo, ou ixi...hauhauhauhauha!vai la!;*, refletem códigos de entendimento exclusivo. A balada é uma linguagem comum com variações cifradas de difícil entendimento para os adultos. É desse modo que eles fogem da complexidade tediosa da vida adulta. Presas da incompreensão e da perplexidade, pais ansiosos temem pelo futuro dos filhos. Eles também temem, mas estão construindo um universo exclusivo, o mais fora possível do que herdarão, como a natureza depredada, a competição profissional desenfreada, as incertezas de um futuro que eles não construíram. Provavelmente, a coisa que menos os intimida como herança, será a tecnologia com as suas vantagens e desvantagens e, provavelmente, valores familiares e alguma coisa mais. As gerações que hoje oscilam abaixo dos 25 anos estão profundamente desconectadas dos valores de conduta das gerações acima. Por outro lado, é muito penoso rejeitar um mundo e criar o próprio partindo do sofrimento moral e da necessidade de descolar-se das incoerências e das contradições que assistem. Como a geração sofrida que veio depois da segunda guerra mundial, espremida pelos novos valores difusos, a atual também sai de uma guerra de inversões de valores de um lado, e da perda de valores de outro. Afinal, há pouco mais de 20 anos os seus pais viviam muito próximo do começo do século passado. Hoje, todos estamos um milhão de anos à frente, arrastando nossas perplexidades e, junto, os nossos filhos. * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e da revista RDM
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