Não quero emitir juízo de valor, mas confesso que impressionou-me a entrevista de páginas amarelas da edição desta semana da revista Veja, com o autor de novelas Silvio de Abreu. Ele fala abertamente dos resultados de pesquisas qualitativas feitas com grupos de discussão para orientar o andamento da trama e da estória na novela Belíssima. O próprio Silvio de Abreu se confessa chocado com a descoberta de que o público mudou o seu modo de encarar os desvios de conduta dos personagens. Ele relata que as pesquisas sempre são feitas para ver como o público está absorvendo a trama. Nesta, percebeu-se que uma parcela considerável delas já não valoriza tanto a retidão de caráter. Para elas, fazer o que for necessário para se realizar na vida é o certo. Mais adiante ele admite: Esse encontro com o público me fez pensar que a moral do país está em frangalhos. As pessoas se mostraram muito mais interessadas nos personagens negativos do que nos moralmente corretos. Para a novela As Filhas da Mãe, veiculada há cinco anos, Silvio de Abreu lembra que o comportamento dos grupos de pesquisa era muito diferente. Os personagens bons eram os mais queridos. Na última pesquisa eles foram considerados enfadonhos por boa parte da espectadoras. Porém, um sinal novo aparece nessa nova moral. Diz Abreu: Elas se incomodavam com o fato de a protagonista Júlia ficar sofrendo em vez de se virar e resolver sua vida de forma pragmática. É uma nova forma de ver a vida. No lugar de choradeira, vá à luta! Noutro ponto da entrevista Silvio de Abreu revela que colhemos indícios claros de que essa maior tolerância com os desvios de conduta tem tudo a ver com os escândalos recentes da política. Tanto que a leitura da pesquisa deixou claro: Quero ser a Júlia, porque aí pago mensalão pra todo mundo e ninguém me passa a perna. Na tradução, a esperteza desonesta é vista como um valor. De novo, na prática Silvio de Abreu entende que O simples fato de o presidente Lula dizer que não sabia de nada e não viu as mazelas trazidas à tona pelas CPIs e pela imprensa basta as pessoas fingem que acreditam porque acham mais conveniente que fique tudo como está. Talvez essa leniência nacional com a moral e com os costumes esteja na constatação de que o nível intelectual do brasileiro, de maneira geral, está abaixo do que era na década de 60 e 70, porque as escolas são piores e o estudo já não é valorizado como antigamente. (...) O valor não é mais fazer alguma coisa que seja dignificante. As pessoas querem é subir na vida, ganhar dinheiro, e dane-se o resto. Na soma de todos os ingredientes que se impõem na formação da nova moral estão, além da decadência da educação, a superficialidade dos relacionamentos. Os relacionamentos de hoje são mais superficiais, as pessoas casam e descasam com facilidade. A percepção é a de que apesar da visão romântica das espectadoras, elas sabem que nenhum príncipe encantado chegará, todos os problemas serão resolvidos e ficarão juntos e felizes para sempre. Talvez, tirando o cinismo que aparece num monte dessas situações, tudo indica que uma nova moral está em construção no Brasil. E, como todo evento novo, certamente agredirá as regras vigentes. O tempo será o melhor remédio para acalmar os contrastes. * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e da revista RDM
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