ARTIGO
Sexta-feira, 30 de Novembro de 2012, 23h:38
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MARIO EUGENIO SATURNO
A Seca e a Transposição
O nordeste brasileiro vive a pior seca dos últimos 50 anos. São 1.317 municípios em estado de emergência em dez Estados do Nordeste e no norte de Minas Gerais, totalizando mais de dez milhões de pessoas sofrendo alguma consequência. Secaram barragens, açudes e rios. Já perderam pastos e lavouras, escasseando alimento para os rebanhos. Pernambuco, que tem 70% do território no semiárido, já perdeu cerca de 500 mil cabeças de gado, ou 20% do rebanho. O nível dos reservatórios de água é o menor em 10 anos e nos últimos 11 meses, o nível caiu para menos da metade nas principais hidrelétricas do País. É o menor volume de armazenamento desde 2001, nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul. A pior situação é a Hidrelétrica de Itumbiara, do Rio Paranaíba, entre Itumbiara (GO) e Araporã (MG), que está com 13% de armazenamento em seu reservatório, ou apenas cinco metros acima da cota mínima da hidrelétrica. Em 2001, a usina alcançou 7% de volume de água na represa. Itumbiara, que tem potência para gerar 2.100 MW, está produzindo somente 1.100 MW. E as novas hidrelétricas em construção não têm reservatórios, como as de Belo Monte, Santo Antônio e Jirau. O problema é que a diferença do volume de água do período seco para o úmido no Rio Xingu, da usina Belo Monte, é de 25 vezes. No Sudeste, isso fica em 5 vezes. Sem reservatório, a única opção será ligar as usinas a gás, carvão e diesel, poluidoras e caras. São Paulo também apresenta baixa nos reservatórios. E eu ainda não entendo porque a demora para tranformar as usinas de álcool em termelétricas de bagaço... A situação só não é pior porque o ministro Mantega errou na previsão do crescimento da economia, que deve ter o pior desempenho dos últimos 25 anos. Assim como em São Paulo, é no período mais seco do ano que os ventos são mais fortes no Nordeste e, consequentemente, as eólicas produzem mais energia. E o que está fazendo a presidente Dilma Rousseff? Mais uma promessa! Em Salvador falou que este País não tem mais o direito de deixar que a seca se transforme em um flagelo; nós vamos usar esta seca para avançar mais, vamos resolver, estruturalmente, o problema da seca. Esse é o compromisso. Isso ocorreu durante a assinatura de convênios de 77 obras para ampliar a oferta de água em municípios da região, que somamm R$ 1,8 bilhão de um total previsto de R$ 3 bilhões. Serão promessas vazias? Afinal, o ex-presidente Lula prometeu, junto com a Dilma, a mãe do PAC, a transposição das águas do Rio São Francisco para o semiárido para 2012, mas... Como muitas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), esta também não avança, seja por irregularidade ou por incompetência gerencial. Em 2007, a construção dos dois canais foi iniciada, o Eixo Leste, com 293 km, em direção a Pernambuco e Paraíba, e o Eixo Norte, com 420 km, para o Ceará e o Rio Grande do Norte. As obras custariam R$ 4,5 bilhões, hoje, estima-se o custo em R$ 8,2 bilhões, mas deve ficar ainda mais caro. Pior do que o custo é não ter a água prometida neste momento tão crucial. *MARIO EUGENIO SATURNO é tecnologista sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mariosaturno.blog.com