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ARTIGO
Quarta-feira, 09 de Março de 2016, 20h:16

RENATO DE PAIVA PEREIRA

A gente se fala!

Eliza e Romeu são médicos que moram no edifício Sunshine em BH. Lá também residem Márcio e Patrícia, ele empresário ela arquiteta. Conhecem-se superficialmente: “bom dia, boa tarde” “Que lindo o cachorrinho, é ele ou ela?” “Que chuva, né?” e outras superficialidades comuns entre vizinhos no elevador. Noutro bairro também em Belo Horizonte dois casais, Rodrigo e Lu; João Vitor e Sonia, eles advogados, Lu empresária e Sonia psicóloga, moram no condomínio Moonligth, para onde mudaram-se há 3 anos. Pouco se encontram a não ser em uma ou outra reunião trimestral com o síndico, sempre cheia de brigas e reclamações. Os oito saíram de férias no último carnaval e escolheram, com a única finalidade de dar assunto a este cronista diletante, o mesmo descomunal navio de cruzeiros, destes em que cabem, com folga, toda a população da minha cidade natal. As pessoas não se encontram facilmente no meio desse mundo de gente, mas eles deram um jeito para não frustrar o articulista, que precisa disto para desenvolver o assunto. Encontraram-se, na segunda noite, os médicos do Sunshine com o Rodrigo e a Lu do condomínio Moonligth. Imediatamente nasceu uma grande empatia entre eles. Quando se separaram, depois de um excelente vinho chileno, parecia que já se conheciam há anos. Nos quartos cada casal se referia ao outro com admiração: “que gente legal, né bem?” “Achei eles ótimos, amor” “Querida, amanhã vamos cedo para a piscina encontrar os novos amigos” “Me chame se eu não acordar, paixão” E no quase imperceptível balanço do navio, as palavras amorosas, foram aos poucos diminuindo até que os dois casais, cada um em seu quarto, porque isso aqui não é uma crônica pornográfica, claro, adormeceram. Agora você que está lendo, faz de conta que não adivinhou que os outros dois casais vão se encontrar também, para não tirar a graça do narrador. Encontram-se. Depois do mesmo vinho estimulante, Márcio/ Patrícia (do Sunshine) e João Vitor/ Sonia (do Moonligth), vão dormir com excelente impressão uns dos outros. Não vou repetir o diálogo na cama, por serem muito parecidos. Acrescente-se aos adjetivos elogiosos que já conhecemos: ”muito cultos”, “que educação refinada’... “viu os modos deles à mesa, amorzinho?” “E o francês dela...” Quinze dias alegres passam num instante. Depois no whats app, instagran e outras redes sociais, trocaram fotos, mandaram selfies, traçaram planos. Mas o tempo, que tudo amarela e amolece, foi pondo no esquecimento os dias intensos que os oito viveram. Os casais do Sunshine, Eliza/Romeu, Márcio/Patrícia, que compartilham um grupo no “Watts” descobriram que estiveram no mesmo passeio e, em um breve encontro antes da reunião do condomínio naquele mês, falaram das maravilhosas pessoas que encontraram na viagem, os moradores do condomínio Moonligth. Por favor, não se aborreça comigo, mas tenho de contar-lhe que os turistas do Moonligth também se encontraram alguns dias depois e, que, pelo amor de Deus contenha-se, não vá pensar que isso aqui é coisa inventada, falaram a mesma coisa sobre os casais que conheceram. Pessoas em viagens são assim mesmo, vendem naturalmente suas qualidades e compram, sem pechincha, pelo valor de face, todas as virtudes dos novos amigos. E acham esses muito mais interessantes do que os antigos conhecidos e vizinhos. Depois, no intervalo de 11 meses até as próximas férias o azedume impera. Encontrando-se por acaso no shopping, após uma rápida conversa, por certo encerrarão o diálogo com a célebre expressão “precisamos marcar alguma coisa para um dia desses”. Ao que o outro responde: “é mesmo, a gente nunca mais se encontrou depois daquela viagem”. E em uníssono: “A gente se fala”! * RENATO DE PAIVA PEREIRA – empresário e escritor [email protected]/bentevimos.com.br

Edição EDIÇÃO 16969




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