ROBERTO B. DA SILVA SÁ
2014 mal começou. Ainda há fagulhas dos fogos que explodiram em nosso céu, que, como diz o poeta, tem mais estrelas. Há também o barulho dos rojões, que tanto perturbam os cães. As roupas novas usadas na virada ainda secam no varal; e no entanto... No entanto, junto com as límpidas águas de janeiro que caem forte do céu, provocando tragédias aqui e acolá já temos as águas salobras que nós próprios produzimos. Pelos olhos dos que ainda guardam sensibilidade à dor alheia, já puderam cair muitas lágrimas. Outras virão. A nova fatia do tempo só está no começo. E por que estou dizendo isso, perguntaria alguém já em clima de carnaval, de Copa e de eleição? Porque evito ser otário, apesar de ser brasileiro. Por que, antes de absorver a produção do orgulho nacionalista, enxergo o que ocorre em meu país. Por que tenho clareza da maioria dos problemas, agravados a cada novo amanhecer; e não tenho muitas dificuldades para saber onde está o xis de grande parte desses problemas. Por que tenho aprendido a pensar dialeticamente sobre as ações humanas. Nesse início de ano, aqui no Brasil, pensar sobre essas ações obriga-nos a falar de uma imensa pedra no meio do caminho. Obriga-nos a entrar no horrendo Complexo de Pedrinhas, localizado em São Luís/MA, terra de antigos donatários e mandatários, quase todos bigodudos e no poder desde o golpe de 64. Pois bem. Por trás de um nome carinhoso, por conta do diminutivo da palavra pedra, esconde-se uma rocha de problemas, não apenas daquele estado da Federação, mas de todos os outros. Na rebelião de Pedrinhas, iniciada no final de 2013, mais de sessenta pessoas já foram mortas. Só em 2014, três presidiários foram decapitados. A degola corpo separado em duas partes expõe uma das cenas mais chocantes produzidas pela (des)humanidade. Mas se a degola de detentos é chocante, o que dizer das imagens também em São Luís em que alguns anjos decaídos chegam correndo e ateiam fogo em um ônibus cheio de passageiros? Emudecidos, soubemos depois: a ordem viera de dentro de Pedrinhas. Dessa ordem, ou melhor, dessa desordem, mais vítimas. Dentre elas, contrariando o que aponta seu nome, o caminho de Ana Clara uma garotinha de seis anos escureceu ali mesmo. Dessa dor, olhando para outras partes do mapa do Brasil, vemos uma avalanche de violência, da qual a periferia espaço distante do centro das decisões políticas e econômicas é o grande palco banhado de sangue. Chacinas não param de ocorrer! Também da periferia vem a mais nova brincadeira: os rolezinhos em shoppings. Neles, adolescentes que curtem o funk ostentação, autoconvocados pelas redes, reúnem-se para protestar contra algo, para pegá as mina, para serem vistos, ou só para impor um corre-corre geral. Trata-se, pois, de um simples entretenimento, mas ocupando espaço nos templos do consumo. A reação das elites foi imediata e violenta. E assim a cada modalidade de violência vamos perdendo nossas novas gerações, conectadas sempre, mas sem prumo e sem rumo. Pior: essas perdas não serão reparadas com melhorias em presídios, que precisam ser feitas; nem serão garantidas com reforços de segurança, dos quais precisamos. Como, então, não levar um olé dos rolezinhos? Como desviar de tantas Pedrinhas? Oferecendo educação e cultura de qualidade a todos. Só isso possibilita alguma ascensão social verdadeira. Sem isso, todos tomarão muitos olés dos rolezinhos e pedradas das Pedrinhas; afinal, uma turba ignara é perigosa demais. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ, Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT
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