Em 1986 Fritjof Capra ponderou no seu Livro Ponto de Mutação que o século XX representava a era da sensualidade. Essa constatação não nos parece incomum, todavia, convém explorar um pouco mais o significado dessa conclusão e as conseqüências que ela desencadeia. Como poderíamos definir algo como sensual? Não há dúvida de que uma das idéias mais arrebatadoras do que seja a sensualidade se associe às inúmeras formas de expressão humana cultuadora do erotismo. Mas essa apologia à sedução estaria levando a humanidade a um ponto limite. Há ainda outras maneiras de entender como nosso tempo é guiado pelo estereótipo do sensual. Se entendermos a sensualidade como algo que se manifesta na beleza da forma, outros elementos se incorporam nesse conceito. Essas outras formas de exposição sensual à qual sucumbimos está por toda parte. Aqui realço algumas dimensões do sensualismo. Uma delas refere-se à construção civil que tem primado cada vez por padrões geométricos deslumbrantes, e felizmente, por edificações mais ecológicas. E o que dizer de celulares, computadores, carros e aeronaves com designer futuristas? Nos mercados, os artefatos precisam realçar a perfeição, evidenciar elegância de seus contornos, exaltar suas proezas estéticas. Um dos filtros para satisfazer nossa cobiça é a sutileza da plasticidade e toda a imponência que lhe atribuímos. O mais notável é que essa beleza nos objetos está quase sempre acompanhada do aprimoramento e amigabilidade de seus aspectos funcionais. Mas nada é tão convincente para confirmar uma época marcada pelo sensualismo como o universo da moda. Os devaneios perfeccionistas das passarelas com suas medidas severas e requintes não compreendidos movem uma poderosa indústria. Cosméticos e cirurgias são ofertados à uma multidão capaz de financiá-los. A idéia de protelar a velhice é algo tão excitante que poucos escapam do laço dessa vaidade. Outro campo em que a beleza acena sua importância mas não a traduz em resultados é o aparato legal. O hiato entre o que a lei prescreve e o que de fato executa é um fenômeno inquietante. Como fundamentos de nossa organização social as leis - estão ricamente adornadas pela beleza da forma mas deplorável na exemplaridade. As instituições também há bastante tempo, embelezam suas fachadas com ousadas missões, e sem exagero, reiteradamente declinam em suas tarefas. É difícil afirmar se Capra tinha razão quando prognosticou a queda do sensualismo como um estilo dominante de vida. Afinal, ao que parece, a característica do que seja sensual submete boa parte de nossa cultura: intenção conta mais que o esforço; verniz mais do que a matéria que protege; leis poéticas mais do que o resultado que produzem; cargos importam mais do que pessoas; anatomia supera virtude e fisiologismo sacrifica mérito. Em cada indivíduo coexiste o dualismo entre aparência e essência e cada qual, paga o preço e colhe os benefícios desse (de)equilíbrio. * PAULO CÉZAR DE SOUZA é Mestre em Economia pela UFMT e gestor governamental
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