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ARTIGO
Quarta-feira, 20 de Março de 2013, 20h:54

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

A base pela casa

Escrever o que muitos gostariam de escrever é possível, mas não é possível escrever o que todos gostariam de ler. Digo isso porque divergências não faltaram sobre meus dois últimos artigos. Sobre o primeiro, as discordâncias são normais, pois afirmei não ter visto positivamente o encastelamento de Bento XVI. Há quem ainda esteja rezando por mim... Sobre o outro, as divergências são preocupantes; afinal, condenei a brutalidade de integrantes da PM/MT contra acadêmicos da UFMT, que protestavam – em via pública – pelo possível fechamento de vagas na casa dos estudantes. Quando escrevi o artigo, não imaginei que algum cidadão – vulnerável a todo tipo de violência, inclusive a policial – defendesse aquela brutalidade; aliás, a cúpula da própria PM puniu os reais infratores. Por isso, indago: defender aquilo não seria uma forma de apresentar-se também como mais um violento? A despeito disso, os que defenderam a ação policial, via de regras, apelaram para o direito de ir e vir. Ex.: “...os estudantes estavam errados em não desobstruir a pista e levaram bala e cacetada por resistência em cumprir a lei... A PM empregou a força de forma proporcional, pois a pista tinha de ser liberada... e ninguém morreu...” (In: Mídia News: 14/03). Então tinha de ter cadáver para a condenação da violência? Faltou pouco! Um dos estudantes – jogado no asfalto – teve arma apontada contra seu rosto. Isso é “força proporcional”? Nos vídeos a que assisti, um grupo empunhava armas; o outro carregava cartazes, pleiteando uma demanda. Sobre os direitos das partes envolvidas, transcrevo um excerto da entrevista ao Mídia News (17/03), concedida por Naldson Ramos, que coordena, na UFMT, um núcleo de pesquisa sobre violência. De forma lúcida, diz o colega: “...dois direitos estavam em confronto: o da manifestação e o de ir e vir. Como resolver, se ambos são legítimos? Pelo consenso, e não ficar contra o lado mais fraco para favorecer a maioria... Não era preciso dissolver a manifestação a balas de borracha... Era preciso insistir na negociação...” Lucidez também demonstrou um leitor de Gabriel Novis, ex-reitor/fundador da UFMT, sobre o mesmo fato (13/03). Disse seu leitor: “...Falar que os quarenta estudantes estavam errados por bloquear parcialmente uma via pública por minutos é o mesmo que exigir deles um protesto silencioso, de preferência nos sofás de suas casas”. Perfeito! Protesto – direito também assegurado na Constituição – é em espaços públicos. Protestar dentro da Universidade é o mesmo que optar por atos onanistas. Produz efeito, só que apenas para si. Mas a lucidez não é para todos. Um exemplo pode ser visto no facebook da pró-reitora de Administração/UFMT, que diz a um amigo: “...ué (fulano)... foi sempre assim, cças brincam com fogo, se queimam, e daí vão chorar no colinho da mamãe...” Que miséria de “avaliação”! Quanto desdém aos estudantes! Que desrespeito às suas famílias! A reitoria deveria fazer o mesmo que a cúpula da PM já fez com uma subordinada que, na rede social, também “avaliava” o fato. Por isso, clamo: fora todos os violentos e os destemperados verbais! Diante do ocorrido, e da real falta de vagas para mais estudantes nos espaços afins, indago tanto a reitoria/UFMT, quanto a cúpula da PM/MT, se não seria possível que a base policial, instalada no campus/Cuiabá, fosse deslocada para outro lugar. Se for, as instalações da base poderiam abrigar estudantes carentes que chegam, em maior número, a cada novo vestibular, agora regido pelo sempre inconfiável Enem/Sisu. Vamos pensar nisso? *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. em Jornalismo/USP; prof. de Literatura/UFMT

Edição EDIÇÃO 16960




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