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Cuiabá MT, Quinta-feira, 11 de Junho de 2026

Primeira Página
Sábado, 24 de Maio de 2008, 16h:07

ENTREVISTA

Tendência do PT hoje é compor com PR

Deputado Alexandre Cesar é um dos defensores de uma política de aliança para o projeto de crescimento da sigla na Capital

SONIA FIORI
Da Reportagem
Um dos principais líderes do PT no Estado, o deputado Alexandre Cesar defende uma postura mais democrática em relação às discussões que norteiam o projeto do partido na disputa à prefeitura de Cuiabá. A escolha, na prévia, do nome do professor universitário e arquiteto José Afonso Portocarrero pontuou ainda mais a força do grupo sob o comando do presidente estadual da sigla, deputado federal Carlos Abicalil, e, por tabela, de Alexandre. A decisão também marca um novo entendimento a respeito das propostas para as eleições desse ano. A nova dinâmica de diálogo poderá trazer um quadro onde se admite a possibilidade de rever a posição de liderança de chapa em uma eventual composição. Na avaliação do deputado, o PT precisa estar centrado num plano de governo para a Capital, onde o partido tenha a real oportunidade de representar os projetos da sigla. Com Portocarrero à frente do projeto, abre-se uma maior oportunidade de ampliar os debates que já se afunilam principalmente com siglas como o PR e o PSB no município. Muitas vezes criticado por membros do diretório municipal, o parlamentar expõe nesta entrevista ao Diário seu posicionamento sobre este pleito e o passado, quando disputou a prefeitura da Capital. Também aborda questões como a dívida de campanha contraída no pleito de 2004. Alexandre ressalta o bom relacionamento vivido entre o PT e o governador Blairo Maggi (PR). Observa ainda o apoio conferido pela sigla em Várzea Grande ao pré-candidato do PP, deputado Maksuês Leite. Cesar, no entanto, pondera que ainda é cedo para avaliar o projeto do partido para 2010, quando poderá lançar seu nome novamente à disputa pela Assembléia Legislativa. Diário de Cuiabá - A escolha nas prévias do PT de José Afonso Portocarrero é vista como uma vitória do grupo liderado pelo presidente estadual da sigla, Carlos Abicalil. Como analisa essa disputa interna e a vitória sobre o grupo liderado pela senadora Serys Slhessarenko? Alexandre Cesar - Acho que é uma vitória em torno de um projeto para o PT de Cuiabá. A nossa tendência “Construir um Novo Brasil” apoiou a candidatura de José Afonso Portocarrero, mas também participaram desse processo a “Utopia e Vida”, que tem em Cuiabá a vereadora Enelinda como representante, e o núcleo que tem o vereador Lúdio. Então, foi um conjunto de forças que estiveram em três chapas diferentes da última eleição interna e que se uniram em torno desse propósito, que é uma visão sobre o PT de Cuiabá e sobre o projeto que o Portocarreo representava. Então, foi uma vitória desse processo, sem imposições e que construiu a candidatura à prefeitura municipal. Diário - Como o senhor analisa as reais chances do Portocarrero em relação aos outros adversários? O Mauro Mendes acaba de confirmar seu nome na disputa? Alexandre - É uma disputa bastante difícil. Primeiro, porque temos um candidato à reeleição que vem se utilizando de forma muito sistemática desse seu poder como prefeito para cooptar partidos, para atacar eventuais candidaturas de outras legendas e também para se utilizar de programas que não são necessariamente da prefeitura como forma de tentar construir no imaginário da população uma visão de que a prefeitura tem feito. Então, é uma disputa difícil com candidatos também que já estão na atividade política há bastante tempo como o Walter Rabello pelo PP, Valtenir Pereira, pelo PSB, e nós sabemos que é preciso um grande esforço. Diário - Existe uma possibilidade de o PT recuar desse projeto próprio? Alexandre - Sim, mas não de recuar de um projeto próprio. Acho que quando a gente faz uma aliança a gente não está recuando do projeto próprio. Nós estamos construindo um projeto que é coletivo. É diferente de recuar de projeto próprio. E o que me parece é o projeto que hoje está defendendo grande parte do diretório municipal de Cuiabá, as principais forças do diretório, de que é preciso conversar, de que o PT não pode e não vai ficar no gueto isolado nesse processo e conversar necessariamente passa por entender que inclusive outros partidos que também tem suas candidaturas colocadas, tenham essa disponibilidade, é o caso do PSB, do PR e também do PV, que também precisamos buscar, do PCdoB que não tem candidatura, mas que nós achamos que é um arco de alianças muito positivo para Cuiabá. E se nesse processo nós chegarmos à conclusão de que é preciso fazer composições e que o PT não terá a candidatura à prefeitura, nós acreditamos que tem que ficar bastante claro também que o PT não vai ser coadjuvante, tem que ser protagonista, participando da chapa. Diário - O senhor chegou a reclamar da falta de convite para participar dessas discussões? Alexandre - Eu acho que faltou debate. O partido, que tem uma tradição em promoção de debates públicos, plenárias, pudesse se reunir mais para debater, para amadurecer. Eu não sou daqueles que defendem o assembleísmo puro e simplesmente, acho que a gente tem momentos e momentos. Mas na construção de um processo é importante que a gente tenha espaço para que todos que têm alguma contribuição tenham algo a dizer, possam estar presentes para poder dar sua opinião, para externar as suas posições. Diário - Em muitas situações, representantes do PT de Cuiabá ainda relembram a questão da dívida de campanha deixada na eleição de 2004 e atribuem isso ao senhor. Alexandre - Há o que a gente chama de uma amnésia seletiva em alguns casos. As pessoas se esquecem, por exemplo, de que participaram da coordenação da campanha com direito a decidir como a direção municipal. E é natural uma tradição judaico-cristã de buscar colocar a culpa em alguém que está fora, alguém que não é você próprio. A capacidade de autocrítica infelizmente é uma virtude e poucos a têm. Por isso mesmo eu, que reconheço meu grau de responsabilidade no processo que levou a crise de 2005, não aceito, todavia, ser o bode expiatório desse processo. Essa tradição judaico-cristã de colocar sobre um animal, sobre um bode, sobre qualquer figura todos os males e depois espantá-lo como forma de ser livrar do problema, a meu ver, não resolve o problema. Você cria só uma imagem de que o problema está resolvido. Eu estou trabalhando para resolver o problema, não buscando culpados para responsabilizar e me desincumbir dessa responsabilidade. Diário - O projeto do PT de Cuiabá é importante para 2010 e já se pensa em um nome para eventual disputa ao governo do Estado? Alexandre - O PT tem muito claro que um processo eleitoral naturalmente tem influência. Agora, é claro que nós não estamos colocando sobre o processo eleitoral desse ano valores maiores do que ele possui para a construção de um projeto em 2010. O PT está, sim, construindo a sua trajetória como forma de viabilizar-se como alternativa de poder para 2010. O PT tem essa clareza e sabe dessa responsabilidade. Nós precisamos continuar essa trajetória para poder primeiro retomar o crescimento que tivemos até 2002 e depois buscar colocar o PT também como protagonista dentro desse projeto. O nosso projeto pressupõe necessariamente sustentabilidade ambiental e social e isso também deve ser enfatizado. Estamos trabalhando para isso, ter um bom resultado nas eleições. Diário - Qual a perspectiva de lançamento de projetos próprios nos municípios? Alexandre - O nosso planejamento apontou para duplicar as prefeituras de sete para catorze, aliás, hoje são oito e às vezes chega a nove dependendo da situação de Juscimeira, mas elegemos sete. Então saltar de sete para catorze e pelo menos duplicar o número de vereadores. Elegemos cerca de 105 nas últimas eleições e pretendemos duplicar. Hoje nós estimamos em cerca de 35 candidaturas próprias, mas são candidaturas realmente viáveis. O PT hoje tem clareza de que é preciso ter vereadores nas câmaras municipais, que é preciso ter protagonismo na ação política no município e isso se faz buscando composições com aqueles que mais se aproximam das nossas posições. Diário - Em Várzea Grande, o PT fazia parte da administração do prefeito Murilo Domingos, saiu e agora fechou apoio ao pré-candidato do PP, deputado Maksuês Leite. Alexandre - Outra premissa nossa é que respeitamos a autonomia de cada diretório municipal. O PT não é um partido de caciques e que de acordo com os interesses estaduais, regionais acaba por impor as questões em cada município. Entendemos que foi adequado ter apoiado o prefeito Murilo Domingos como uma forma de interromper uma trajetória, ao meu ver, conservadora na administração de Várzea Grande, com reiterados governos do PFL, hoje DEM. Foi importante nossa participação em postos-chave do governo Murilo. E respeitamos também quando o PT decidiu sair da administração e buscar outro projeto, como apoiamos da mesma forma a construção de um projeto em torno da candidatura do deputado Maksuês Leite. Tanto, que a decisão do diretório municipal foi unânime, todas as forças entenderam de que esse era o melhor caminho para o PT. Nós, agora, estamos trabalhando para construir um bom programa de governo, junto com o deputado Maksuês, e para que nós sejamos protagonistas nesse projeto. O PT quer trabalhar para indicar o candidato à vice-prefeito nessa coligação. Diário - Como analisa a aproximação do PT com o PR através do governador Blairo Maggi? O senhor entende que a administração vem tendo um bom desempenho? Alexandre - Em primeiro lugar, é preciso dizer que na nossa leitura o governo vem fazendo um bom trabalho. Exatamente por isso é que nós aceitamos o convite do governador Blairo Maggi para fazer a coalizão nacional também aqui no Estado. E temos essa leitura de que é um governo que enfrentou alguns temas delicados e conseguiu avançar, e que vivenciou momentos de crise maior, macro do ponto de vista econômico e também conseguiu superar essas crises com muita determinação. Esse espaço que nós conquistamos na Secretaria de Educação é de grande responsabilidade, e o PT está se dedicando muito a esse trabalho. Diário - Qual é o seu projeto político para 2010. Alexandre - Eu agora tenho a oportunidade de exercer o mandato de deputado estadual em razão da licença do secretário Ságuas. Ocupo essa vaga que é do Partido dos Trabalhadores nessa Casa. Nosso projeto é executar da melhor forma possível esse nosso projeto, seja como deputado estadual, com a linha que nós já definimos de atuação do nosso mandato que são prioritárias. Em 2010 o partido vai ter que avaliar. Eu nunca fui candidato de mim mesmo, nunca me coloquei como alguém que queria uma determinada posição num processo eleitoral ou num processo eletivo. Sempre foi fruto de uma discussão partidária. Essa discussão nós vamos fazer em 2010. Hoje, é claro que se coloca mais proximamente a continuar esse trabalho, mas se o partido decidir por outro caminho ou se decidir por caminho nenhum que é outra possibilidade também nós vamos aceitar. Tenho uma militância no PT de mais de 20 anos, e é esse caminho que nós vamos seguir. Diário - Quando o PT não conseguiu viabilizar os nomes da senadora Serys e do deputado Carlos Abicalil para liderar o projeto próprio, o partido perdeu nesse processo? Alexandre - Eu acredito que não, nós temos que entender que há um processo em curso. Tanto a senadora Serys quanto o deputado federal Carlos Abicalil assumiram responsabilidades nos seus mandatos, nos projetos políticos. O deputado Carlos Abicalil especificamente assumiu o compromisso de conduzir o PT durante esse processo, inclusive eleitoral desse ano. Hoje o partido está praticamente organizado em todos os municípios, falta somente um município ser organizado: em Tesouro. Foram esses fatores que levaram a que nenhum dos dois nomes estivesse disponível. Houve muita especulação, mas nunca de fato nenhum dos dois nomes foi colocado. Diário: Como o senhor analisa a condução desse processo pelo atual presidente, Vilson Aguiar? Alexandre - A direção reflete a meu ver o processo interno do partido. Nesse momento o partido em Cuiabá vive essa condição e acredito que é muito legítimo, inclusive, que as tendências que, as posições internas, transitem de uma para outro. Havia alguns grupos que defendiam de forma ferrenha há pouco tempo a candidatura própria, quase que como um princípio, quase que como uma coisa intocável, e hoje se disponibilizam a sentar-se a uma mesa para debater uma possibilidade de aliança. Nós sabemos que defender a candidatura própria acima de qualquer coisa é defender o PT sozinho. Nós perguntamos a quem interessa o PT sozinho nessa eleição, qual interesse está por trás disso. Com toda certeza, não é de fortalecer o Partido dos Trabalhadores nem o projeto popular alternativo para a prefeitura de Cuiabá. Diário - Mas os nomes de Serys e de Abicalil reforçariam mais o projeto próprio... Alexandre - São nomes que têm uma força e têm uma história, e por isso mesmo têm uma responsabilidade. Não são nomes que têm que ser levados a processos eleitorais somente porque têm essa visibilidade. Esse processo tem que ser construído, e isso não aconteceu durante esse período de pré-campanha desde o ano passado até agora. Então, nós temos que visualizar claramente que o processo que nós temos hoje é um processo que foi construído pelo PT. Esse é o processo que nós temos hoje e isso, a meu ver, não prejudica, mas mostra uma faceta do partido que precisa ser melhorada, precisa ser enfrentada, mas não um elemento de enfraquecimento do partido. Pelo contrário, o PT continua sendo o partido mais admirado pela população cuiabana. O presidente Lula tem 85% da aprovação da população cuiabana do seu governo, que é um índice recorde na história, e com tudo isso o PT tem um grande patrimônio político em Cuiabá que nos levou ao segundo turno na eleição de 2004 e que continua fortalecendo o partido, e é esse patrimônio que vai estar nas eleições de outubro desse ano.

Edição EDIÇÃO 16960




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