Primeira Página
Sábado, 06 de Março de 2010, 14h:40
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ENTREVISTA
Serys narra preconceitos na política
Referência da mulher em política no Estado, a senadora Serys Slhessarenko também enfrenta comentários machistas até no seu partido
SONIA FIORI
Da Reportagem
Segunda-vice-presidente da mesa diretora do Senado, Serys Slhessarenko (PT) revela um cenário ainda desolador em relação à garantia dos direitos igualitários entre homens e mulheres. Na trajetória de luta marcada pela primeira greve conduzida por mulheres, no dia 8 de março de 1857, em Nova Iorque, conquistas são reconhecidas pela parlamentar. Ela acentua a necessidade de dar passos largos para vencer obstáculos como em relação ao preconceito da sociedade e dos próprios partidos em relação à atuação da mulher. A senadora admite sofrer as agruras desse processo no próprio partido uma referência às discussões sobre a disputa ao Senado da legenda para 2010. Ao reafirmar sua decisão de não disputar cargo eletivo caso não seja oficializada candidata à reeleição, Serys ressalta entendimento de que seu trabalho a credencia como candidata natural do PT. Nesta entrevista, à véspera do Dia Internacional da Mulher, a parlamentar discorre sobre a organização da mulher no Congresso Nacional e fala dos avanços obtidos por meio da resistência feminina. Ela avalia ainda as dificuldades dos partidos para assegurar maior integração da mulher na política e destaca barreiras que devem ser vencidas. Serys lamenta a redução da representação da classe em cargos nos Executivos estadual e municipais, mas lembra a importância da continuidade da luta. Entre os projetos de sua autoria, ela pontua o que prevê a igualdade salarial entre homens e mulheres. Diário de Cuiabá - Senadora, como uma das maiores representantes da classe política do Estado, como a senhora avalia a pequena participação da mulher na política? Serys Slhessarenko - Esse é um processo em construção. O caminho percorrido até aqui é longo e cheio de obstáculos, mas também de muitas vitórias. Se olharmos do ponto de vista histórico, é um processo recente. O direito de voto às mulheres foi conquistado, tardiamente, somente em 1946. Hoje, as cotas de mulheres para as candidaturas nos partidos sequer são preenchidas. Há muitas dificuldades. Além disso, as poucas que conseguem politicar, muitas vezes, encontram obstáculos de se manter no processo. Muitas mulheres são excluídas do processo eleitoral, simplesmente pelo preconceito ainda teimoso em existir. Não se candidatam, não ousam entrar neste meio. São desestimuladas a participar dos pleitos. Algumas pesquisas revelam que as mulheres nem sempre votam em mulheres. O motivo, muitas vezes, é cultural. Não estamos acostumadas a ver mulheres candidatas e muito menos no exercício do poder. Nada melhor que uma mulher no poder para entender as necessidades humanas. Afinal, somos mães de homens e de mulheres, sem preconceitos. Conscientizar-se de que somos pouco representadas na vida pública é um começo. Projetos de lei para garantir nossa permanência no poder político do país estão em andamento, mas é preciso que a cultura seja modificada. Por isso, a igualdade de direitos entre homens e mulheres precisa ser uma luta constante. Diário - Mato Grosso, nesse contexto, carece de políticas de incentivo? Serys - Sim, claro! Mato Grosso não é diferente do resto do país e do mundo. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), de cada cinco assentos nos parlamentos do mundo apenas um pertence a uma mulher. O ideal é que se atinja o equilíbrio: que não menos de 40% e não mais do que 60% das vagas pertençam a um mesmo sexo. Em alguns lugares isso já acontece como em países nórdicos e europeus. Na Suécia e Noruega, por exemplo, as mulheres participam com 40% das cadeiras do Legislativo e 50% dos Executivos. Ou seja, metade dos ministros é do sexo feminino. No Brasil, é bem diferente. Dos 513 parlamentares da Câmara dos Deputados, 45 são mulheres (8,77%). Nenhuma delas, mesmo em mandatos anteriores, jamais ocupou cargo titular na mesa diretora. No Senado, não é muito diferente. Somos 81 senadores e apenas 11 mulheres (13,58%). No entanto, conseguimos avanços. Na mesa diretora do Senado hoje, dos 11 cargos disponíveis, o segmento feminino ocupa dois deles. Mas ainda é pouco. Diário - Esse quadro está, na sua opinião, ligado diretamente à sociedade patriarcal? Serys: Como disse o presidente Lula, durante o 4º Congresso Nacional do PT recentemente, a verdade é que a mulher ainda é tratada no submundo de cada residência, como se fosse um objeto de segunda classe. Ela não participa da política, é impedida, uma vez que não é um setor considerado próprio delas. Isso é um reflexo claro da sociedade patriarcal. Mas vale reforçar que há tempos nós, mulheres, lutamos por uma posição na política brasileira. Este ano, as eleições estão aí. A mulher na política tem sido o tema principal, já que teremos, pela primeira vez, várias candidatas potenciais do sexo feminino concorrendo à vaga de presidente da República. Diário - O preconceito em relação à mulher profissional é uma realidade no mercado de trabalho do país. Como superar isso ou ao menos conviver melhor com esse triste quadro? Serys - Combater o preconceito qualquer que seja ele - é um trabalho permanente. Deve ser incansável. Só mudamos o que está posto, com muito esforço. O trabalho é duro, mas não podemos nos dar ao luxo de conviver pacificamente com esse quadro. Estamos em pleno século XXI e a hora de superação é agora. Sobre isso tenho um projeto importante que trata da Igualdade Salarial entre homens e mulheres (PLS 25/2009). Esse projeto aplica penalidade administrativa ao empregador que viole a obrigação de igualdade salarial entre mulheres e homens, que atuem na mesma função. Nesta semana, tive a oportunidade de entregar uma cópia desse projeto à secretária de Estado do governo norte-americano, Hillary Clinton, durante sua visita ao Brasil. Obama (Barack Obama, presidente dos EUA) apresentou um projeto semelhante a esse assim que assumiu a presidência dos Estados Unidos. Diário - Participar na militância do partido e disponibilizar o nome para uma disputa eleitoral são duas situações diferentes. O que o PT vem fazendo para incentivar o ingresso da mulher nas disputas eleitorais? Serys - Sou a primeira mulher a ser eleita senadora pelo PT de Mato Grosso, e a primeira mulher, em nosso país, a assumir a vice-presidência do Congresso Nacional e tenho muito orgulho disso, porque foi com a força de nossa militância e com a vontade do povo que cheguei até aqui. O PT tem, ao longo dos seus 30 anos de história, tido essa característica, de querer buscar essa igualdade de oportunidades. Claro que, às vezes, ocorre uma tentativa de desestabilizar esse direito da mulher conquistado a ferro e fogo , mas são casos isolados. Diário - Como o PT vem trabalhando para preencher a cota de 30% destinada às mulheres nas disputas? É difícil preencher os espaços? Serys - É muito difícil! Muitas mulheres sequer se julgam no direito de poder disputar os espaços de poder. O PT, no entanto, dentro do cenário político do país, é reconhecidamente um partido que luta pela busca desse espaço igualitário. Nosso partido foi o primeiro a instituir a cota de candidatos para mulheres, antes mesmo da Legislação tornar essa prática obrigatória. Além disso, teremos, esse ano, uma candidata à Presidência da República. Diário - Como a senhora analisa a redução, nos Executivos estadual e municipais de Mato Grosso, da representação das mulheres em cargos de primeiro escalão? Serys - É lamentável! Inclusive, em diversas oportunidades, tenho cobrado dos chefes dos Executivos tanto o governador Blairo Maggi quanto os prefeitos de cada um dos 141 municípios de nosso Estado sobre a necessidade de termos mais mulheres no exercício de funções importantes para o Executivo. Mas, em muitos municípios, há uma participação expressiva de mulheres ocupando secretarias importantes. Cobrar essa participação da mulher nos espaços de poder é um exercício constante. Diário - Como estão organizadas as parlamentares no Congresso Nacional? Serys - Temos a bancada feminina do Senado Federal, da qual sou coordenadora desde 2003. Essa bancada articula várias lutas. Em conjunto com a bancada feminina da Câmara dos Deputados e a Comissão de Direitos Humanos fazemos, todos os anos, a Campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres. A campanha já tem quase 20 anos e é desenvolvida em 154 países. Também somos responsáveis pelo Prêmio Bertha Lutz, que agracia mulheres que tenham oferecido contribuição relevante à defesa dos direitos da mulher e questões do gênero no Brasil, entre outras ações. Também atuamos juntas, no sentido de votar, em conjunto, e buscar os votos dos companheiros homens, para os projetos de interesse da mulher. Diário - Quais seus projetos e ações destinados à melhoria da qualidade de vida das mulheres? Serys - Meu mandato está muito focado na defesa da Mulher. Tenho uma série de projetos e relatorias nesse sentido. Entre eles, posso destacar o trabalho feito, como vice-presidente da Comissão de Reforma do Código de Processo Penal, para garantir a permanência da Lei Maria da Penha, que, com a reforma, ficou sob risco. Foi um trabalho duro, mas conseguimos resguardá-la. Há ainda também projetos como o que tirou o termo mulher honesta do Código de Processo Civil, pois a mulher que não era considerada honesta perdia a guarda dos filhos, não tinha direito aos bens na separação, etc. Temos o Projeto de Lei, que prevê planos de Benefícios da Previdência Social no que tange ao salário-maternidade e o projeto que prevê condições dignas a mulheres que cumprem pena (PLS 674/2007), determinando a obrigatoriedade da separação de homens e mulheres em estabelecimentos penais. Também conseguimos, nesse mandato, aprovar o projeto que estende a licença-maternidade para 180 dias. Uma grande vitória e um respeito à vida. Mas esses são apenas alguns dos projetos. Diário - Neste dia 8 de março, em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, como avalia no país a evolução das políticas públicas destinadas à classe? Serys - Os avanços são evidentes, embora haja um longo caminho a ser percorrido. O governo federal tem investido em políticas públicas para as mulheres. O fato de termos uma Secretaria Especial de Políticas para a Mulher, com status de ministério, e comandada com competência pela ministra Nilcéia Freire, reforça esse avanço. Diário - Acredita que dentro dos próprios partidos existam situações de preconceito em relação à atuação política da mulher? Serys Sim! Existem, infelizmente. Inclusive, dentro do meu partido. Diário - Como a senhora é tratada dentro do PT, em relação à sua trajetória e história política? Serys - De um modo geral, de forma muito respeitosa. Tenho uma história dentro do PT. Nunca houve um ataque à minha pessoa, mas houve, sim, um ataque, uma tentativa de desqualificação da mulher na política. Alguns dirigentes e poucos militantes, além de fazerem um debate público, que deveria primeiro ter sido interno, foram desrespeitosos nos últimos tempos, na medida em que utilizaram expressões com grande carga de preconceito, quando chegaram a sugerir que eu deveria deixar a disputa ao Senado. Chegaram a usar expressões como é hora dela voltar para casa cuidar dos netos e a fila anda. Isso é um desrespeito claro, não só a mim, mas à mulher brasileira! Isso tudo atenta contra uma militante histórica, uma mulher e, por conseguinte, contra as conquistas de todas as mulheres, já tão poucas na política. Diário - A senhora viveu ou vive algum tipo de preconceito sobre ser uma parlamentar mulher? Serys - O preconceito existe. É velado, na verdade. Mas se traveste de várias formas. No início da minha carreira política, confesso que ele era mais evidente. O tempo me deu muita segurança para lidar com essas questões e a minha trajetória política fez com que muitos passassem a respeitar mais a mulher na política. Agora, não dá para fechar os olhos e dizer que o preconceito não nos ronda mais. Ele está em toda parte, inclusive na política. Diário - Senadora, caso seu nome não seja confirmado como candidata à reeleição, irá mesmo desistir de disputar cargo eletivo? Serys - Com certeza! Essa é uma decisão já tomada. Há vários boatos circulando dizendo que eu disputaria a Câmara Federal ou mesmo notícias plantadas de que eu poderia ser candidata ao governo, mas isso é totalmente inverídico. Tenho deixado bem claro: meu projeto político é disputar novamente o Senado. Meu trabalho me credencia a isso e não vejo motivo para não entrar nesta disputa.