Primeira Página
Sábado, 30 de Outubro de 2010, 13h:03
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ENTREVISTA
Savi se articula para continuar na Mesa
O deputado Mauro Savi (PR) busca apoio na oposição para se eleger presidente do Legislativo, mas sabe das dificuldades para a eventual disputa
ANA ROSA FAGUNDES
Da Reportagem
Cumprindo um mandato-tampão, o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Mauro Savi (PR), busca na oposição o respaldo para de fato ser eleito presidente e promover as mudanças que considera necessárias na Casa de Leis. Eleito pela BR-163 em 2002, o deputado assumiu em agosto deste ano a presidência com a cassação do mandato de José Riva (PP). Entre as primeiras medidas anunciadas estava o corte de 240 funcionários da Casa. Conseguiu cortar apenas 63, mas reitera que vai continuar com a reforma e os que se sentirem lesados devem procurar a Justiça. Considerando-se preparado para o cargo, Savi já está conversando com deputados eleitos da oposição buscando apoio para sua candidatura. Ele lembra que quatro cidades do interior elegeram dois candidatos cada uma e que eles não estarão juntos numa composição. Ele considera que pela primeira vez em muito tempo a disputa pela presidência pode ser competitiva. Ele ainda enfrenta disputa dentro do próprio partido, já que o deputado Sérgio Ricardo, primeiro-secretário, também quer um dos dois cargos principais da mesa: presidente ou primeiro-secretário. Nesta entrevista, Savi ainda fala sobre a proposta de criação do Conselho Estadual de Comunicação. O deputado garantiu que continuaria com a discussão, mas dois dias depois da entrevista voltou atrás, e, temendo a polêmica, desistiu da discussão. Diário de Cuiabá - Devido à sua boa votação, existe a possibilidade de o senhor se candidatar à prefeitura de Sorriso em 2012, que está entre as principais cidades do Estado? Mauro Savi A eleição é um vestibular que te mostra números. Esse 47.663 votos coroaram o deputado Mauro pelo trabalho feito principalmente nas bases eleitorais onde tem mais atuação. Eu digo, sempre bem claro, que sei de onde saíram meus votos. Primeiro por causa do trabalho que eu fiz, segundo pelo comprometimento de uma série de municípios que tinham a confiança e a vontade de que eu continuasse. Em Sorriso eu tenho um grupo político que eu respeito muito. Tive na segunda eleição um problema muito sério, onde caímos de 12 mil votos para 7 mil, porque saiu outro candidato [José Domingos Fraga DEM]. O futuro a Deus pertence. Eu teria uma alegria muito grande se um dia fosse prefeito de Sorriso, mas jamais passando por cima de projeto de parceiros do grupo. Agora se eu for chamado para um compromisso, para encabeçar esse grupo político, pode ter certeza de que não vou me furtar de colocar meu nome a disposição. Diário - Apesar de ser da área rural, o senhor é um deputado com ações em mais setores. O senhor pode definir quais são suas principais bandeiras. Savi E sempre digo que fui eleito por um segmento no primeiro mandato: fui eleito pela BR-163. Era a região que eu conhecia, que começava em Cuiabá e ia até basicamente Sorriso. Quando eu tive a oportunidade de conhecer o estado de Mato Grosso, eu senti que o Estado não era só BR-163, mas que existia Vila Bela, Poconé, Xingu, e eu, como eleito, tinha que pautar todos os municípios no contexto geral, do orçamento, atendimento e encaminhamento de alguns projetos. O mais importante é que acabei meu dois mandatos com 95% dos compromissos cumpridos. Aquilo de eu disse em palanque ou me comprometi, ao longo do mandato, consegui cumprir. Isso significa trabalho e é resultado do crescimento eleitoral, de 17 mil, para 30 mil e chegando agora em 2010 a mais de 47 mil votos. Diário - O senhor já está há seis anos na liderança do governo na Assembleia. Como foi esse trabalho de articulação? Pretende continuar ou vai passar a missão para outro? Savi - A questão de continuar depende do governo, porque é um cargo de confiança do governador. A interlocução tem duas fases. A primeira é de você colocar aos deputados a necessidade da aprovação ou do encaminhamento. A segunda fase é você convencer o deputado politicamente de que o Estado precisa da posição dele. Gosto sempre de frisar: eu não fui eleito porque sou técnico em enfermagem, engenheiro ou arquiteto, eu fui eleito politicamente. Esse entrosamento me deu não só a condição de seis anos como líder de governo, mas também de uma condição de não ter problema com ninguém nesse tempo, o que é mais importante. Quando eu tomo uma decisão dentro da Assembleia, autorizado e conversado com o governo, tenho que fazer cumprir. Diário A Assembleia foi apontada sendo uma Casa subserviente ao governo do Estado. Essa característica então pode ser atribuída a esse trabalho de interlocução forte? Savi - Você ser subserviente de uma alguma coisa que não deu certo é ruim, mas de um governo que tem índice de aprovação de mais de 75% é ótimo. Nós estamos acompanhando uma coisa que está dando certo. Tem problemas? Tem! Tem na Assembleia, no Ministério Público, no Tribunal de Justiça, na sua casa e na minha. Mas o governo tem 75% de aprovação e dessa aprovação se deu a eleição de Silval, a continuidade do governo, mesmo trocando de nome, de Blairo para Silval. É lógico que tendo uma bancada forte igual nós tínhamos automaticamente os projetos andam mais rápidos. Mas a imprensa acompanhou que em muitos casos houve muita discussão, muita posição contrária de projetos que não andaram. Cito o caso do zoneamento. Aprovamos o zoneamento, depois de 20 anos de encaminhamento e três anos de discussão. Mas existem questões que, por maiores e inerentes ao Estado, foram discutidas nos bastidores, como a situação da Agecopa, em que a aprovação foi imediata pela necessidade. Aprovamos três financiamentos de 405, 450 e 220 milhões, para a arena, mobilidade e turismo, tudo aprovado em uma semana. Mas isso nunca aconteceu na Assembleia. Projetos desse montante passariam por quatro ou cinco meses, mas tínhamos uma necessidade de aprovação. Muitas questões não eram subserviência, mas necessidade. Diário O senhor assumiu a presidência da Assembleia em um momento delicado, quando o então presidente José Riva foi cassado pela Justiça Eleitoral por compra de votos. O senhor está conseguindo dar a sua cara a administração? Savi Não! Eu estou conseguindo dar alguma maneira do jeito Mauro de trabalhar. Mas você há de convir comigo que essa Casa tem muito mais idade do que nós dois juntos, então existem muitos problemas e que na medida do possível vamos tentar corrigir. Temos uma série de servidores que não comparecem, com documentação com problemas, e nós vamos tomar atitudes e estamos tomando. Diário - Ao assumir a Assembleia, o que o senhor pretendia era demitir 280 servidores-fantasmas. Essa reforma já está sendo feita? Savi - Já estamos fazendo. Já foram cortados 63, estamos reavaliando a situação de mais 126. São servidores que não comparecem ou que não têm documentação. Diário Como está o seu relacionamento com os servidores, como ficou o clima dentro da Assembleia com esse anúncio? Savi - Eu me preocupo mais é com a minha consciência, não com a questão de ser julgado bem ou mal pelos servidores. Fiz reunião na semana passada, com a Assembleia, com a Mesa Diretora, sobre os servidores da presidência. Disse claramente a eles que se houver cortes, como vai haver, de pessoas que não estão com a documentação em dia ou não comparecem ao trabalho, eles terão todo o direito de procurar a Justiça. Quando eu estou errado eu pago pelo meu erro. E eu acho que as pessoas que estão erradas também devem pagar. Diário Como estão as discussões para a mesa diretora? A gente escuta pelos corredores que o embate será duro. O senhor já está conversando, se articulando? Savi - Já estou conversando. Primeiro, temos que pensar que hoje existe uma oposição que até então nós não conhecemos. Temos o Zeca Viana (PDT), que não sabemos a posição dele. Temos a Luciane Bezerra (PSB), que tem um problema localizado em Juara. Temos a situação de cidades que elegeram dois candidatos. Pela primeira vez Alta Floresta elegeu dois candidatos de partidos diferentes, Brunetto (PT) e Romoaldo (PMDB). Sorriso elegeu dois: Mauro Savi e Zé Domingos (DEM). Sinop dois candidatos de coligações diferente também, Baiano (PMDB) e Dilmar Dal Bosco (DEM). Juara da mesma forma, com Riva e Luciane. Então é quase certeza de que a Mesa passa pela condição local. Diário - Os dois candidatos de cada cidade não vão estar na mesma chapa. Savi Não vão estar! Eu não vou estar junto com Zé em Sorriso. Dilmar não vai estar junto com Baiano em Sinop. Em Juara Riva não vai estar junto com a Luciane. Então, há que se levar em conta e respeitar a oposição. Diário Pela primeira vez em muito tempo poderemos ver então uma disputa real pela Mesa? Savi Com certeza, será mais acirrado. Eu gosto de frisar: tem muito água para rolar na ponte do rio Cuiabá, começou a chover muito e a tendência é de que vai encher. Diário - O senhor está conversado com a bancada de oposição, que soma sete deputados, articulando votos para a eleição. Savi Estou! Conversei com a Luciane, com a Teté Bezerra, com vários deputados. Não conversei com Zeca Viana ainda, mas vou conversar. Eu acho que o importante é que vamos dialogar com todos e saber o termômetro da minha candidatura. Eu me sinto preparado, eu trabalhei para isso. Eu acho que acima de tudo temos compromisso com o Estado. Tenho feito isso em oito anos. Mesmo que não tenha mais projeto nenhum político, tenho compromisso com os que me elegeram. E pode ter certeza de que eu não vou negociar o que não tenho para ser presidente ou ter um cargo na Mesa. Se eu tiver um cargo, vai ser conversado com meus parceiros, feita uma composição. Diário É possível uma composição com o senhor, Sérgio Ricardo e Riva? Savi Os partidos que têm as maiores bancadas, PR, PP e PMDB, têm que tirar dentro dos partidos algum encaminhamento. O Riva já tem a liberdade total dos quatro deputados que compõem o PP de negociar da maneira que ele quiser. O PR, em duas reuniões, tirou a posição de que aquele que conseguir angariar mais apoio será o nome do partido. A lição começa dentro de casa. Não tem como eu sair para uma candidatura, mais o Sérgio e o Barreto. Vamos mos quebrar os três. Os cargos maiores são presidente e primeiro-secretário. Não dá pra começar com duas pessoas do mesmo partido na cabeça. Diário É possível na possível composição da sua chapa ter um nome do PMDB, como Romoaldo Júnior, para assim conquistar cinco votos do PMDB na eleição? Savi Já vemos dentro do PMDB uma conversação para tirar um nome para a composição. Mas eu não posso interferir lá dentro, eles têm que chegar a um acordo. Diário Se o senhor conseguir se articular para a presidência com alguém do PMDB na primeira-secretaria, vai ser uma mudança de fato? Savi Sim, com certeza. Se a oposição vier com uma chapa pura, vai ser mais ainda. Diário - Como surgiu a ideia de criar um Conselho Estadual de Comunicação? Para muito críticos isso pode representar um controle da imprensa. Savi - Houve uma conversa com o Sindicato e nós a respeito a todos, não só o dos jornalistas. A maioria dos meus encaminhamentos é conversada com as categorias. Da ideia se tira um anteprojeto. A partir daí ele é estudado pela nossa assessoria para se chegar ao impacto à sociedade e se vai ferir alguma parte da categoria. Mas o que me causou estranheza é um anteprojeto ter causado tudo isso. Esse Conselho não é controle de mídia. E depois, Assembleia não é um só, são 24 deputados que votam. Há comissões na Casa que vão dizer sobre a legalidade e constitucionalidade. Tem a Procuradoria Geral do Estado, que também diz se é legal, se pode ser sancionado. Fora tudo isso, tem a vontade do governador. Diário - Esse pré-projeto já causa polêmica. O senhor pode voltar atrás se sentir que isso o ameaça eleitoralmente? Savi - A única preocupação que não está em pauta hoje é a questão eleitoral. Vou estudar esse projeto. Se uma categoria pediu encaminhamento, é ela que eu respeito. Não é a questão eleitoral que vai me fazer deixar ou não um projeto. A análise sobre constitucionalidade quem vai fazer é o departamento técnico e jurídico. Eu entrei no projeto da retira da Amazônia Legal do estado, recebi 4.600 e-mails que xingaram toda minha geração e a que ainda vai nascer e não me preocupei com isso. Só não continuei porque juridicamente não podia, que era uma matéria que estava em pauta no Congresso. Não tenho preocupação, vou estudar e se a minha equipe achar que é inconstitucional, a matéria não vai tramitar. Se não achar, pode ter certeza, vai tramitar. Cabe a eles fazer lobby em cima de outros deputados ou do governador para vetar ou não vetar.