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Sábado, 28 de Agosto de 2010, 13h:19
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ENTREVISTA
Política e religião se discute, sim
Na série de entrevistas sobre o pleito, o Diário conversa com dois religiosos para mostrar e detalhar orientações para os fiéis neste processo eleitoral
O Brasil é um Estado laico. O governo não prega nenhuma religião, deixando os cidadãos livres para seguir ou não uma crença. Apesar dessa independência entre as instituições, a religião tem grande influência nos aspectos social, cultural e político, interferindo inclusive, na Constituição brasileira. Diante dessa representatividade, o Diário conversa com dois representantes de instituições religiosas: o arcebispo da Arquidiocese de Cuiabá, Dom Milton Santos, e com o pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil em Cuiabá, Teolbaldo Witter. Eles contam que suas respectivas congregações orientam os fiéis a escolherem bem em quem vão votar. Pesquisar o passado do candidato e a não votar nos fichas-sujas. Dom Milton afirma que a igrejas católicas incentivam os fiéis leigos e entrarem na vida política, mas não permite que os padres se candidatem. Já os pastores podem ser candidatos, porém, como lembra Teobaldo, ele não é eleito para trabalhar apenas para o seu grupo de pessoas, mas para toda a sociedade. Temas como legalização do aborto e da união entre pessoas do mesmo sexo passam, necessariamente, pelo crivo das Igrejas, que fazem pressão para que seus dogmas não sejam contrariados em lei. Acompanhe como a Igreja Católica e a Igreja Evangélica de Confissão Luterana fazem esse trabalho sobre política e religião em época de campanha eleitoral. Diário de Cuiabá - A Igreja tem feito algum trabalho de orientação para os fiéis com relação à eleição 2010? No caso, a Arquidiocese e a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil Dom Milton dos Santos - A orientação para a eleição não pode ser ocasional, somente na iminência da eleição, mas precisa ser habitual, contínua. A Arquidiocese de Cuiabá iniciou aos 10 dias de maio de 2004 uma grande assembleia a qual denominamos Sínodo Arquidiocesano de Cuiabá - e encerramos a primeira parte da referida assembleia aos 22 de maio de 2008. Tecnicamente, estaremos encerrando este grande movimento cívico-religioso em 2012, através de quatro Professores/Professoras de cada Paróquia, os quais serão os multiplicadores leigos para as lideranças de todas as comunidades da Arquidiocese de Cuiabá: são 512 comunidades de 27 paróquias. Estiveram envolvidas na primeira fase mais de 18.500 pessoas nos grupos de reflexões dos cinco roteiros elaborados pela Coordenação. Pois bem, o cristianismo-religião não pode acontecer somente dentro dos recintos-igreja, mas tem vínculos com a vida do dia-a-dia fora dos templos-igrejas. Vive-se uma religião num compromisso com a sociedade, com o mundo... Somos parte de uma aldeia global! Iniciamos decididamente uma conscientização de fé e política continuada. Pastor Teobaldo Witter - A Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil é uma igreja histórica. Está no Brasil, oficialmente, desde 1824, quando migrantes edificaram comunidades de forma democrática. Quando o mundo ocidental, ainda, vivia sob o governo de reis, príncipes e ditadores absolutistas que eram contra consulta popular, lá estavam as comunidades luteranas votando para escolher seu presbitério, seus ministros religiosos, a presidência de sua igreja e seus conselheiros. Em relação às eleições para 2010, a Igreja emitiu uma carta pastoral às comunidades no Brasil. Esta carta convoca todos os membros para votarem com responsabilidade. Chama para superarem o desafio da falta de interesse, da indiferença e do desânimo de boa parte dos eleitores. Diz que devemos votar bem para ter um bom governo, viver em paz e tranquilidade. Segundo a doutrina social da Igreja, expressa no Catecismo escrito por Martim Lutero e base de nossa fé, um bom governo faz parte do pão nosso, pelo que Jesus nos ensinou a interceder. Com nosso voto ajudamos a construir um bom governo. A Igreja pede para, antes de votar, ouvir, pesquisar, indagar, questionar, propor, selecionar. Esta carta é orientação da Igreja para todas as suas lideranças, no Brasil. Estas, por sua vez, são chamadas para divulgar, discutir e debater em suas localidades. Diário - Vocês têm alguma orientação partidária? Indicam algum candidato, seja para Presidência, Senado, deputado federal ou estadual. Dom Milton - Sim! É hora de olhar nos olhos dos candidatos e não se deixar enganar por belas palavras e slogans políticos vazios, vendo neles a real intenção dos seus programas de governo, dos seus projetos legislativos e a vontade política de defender a vida humana desde a sua concepção até o seu final natural, de promover a família brasileira fundada sobre o casamento entre o homem e a mulher, de preservar o meio ambiente no respeito aos vários biomas existentes em nosso país, de apoiar associações, cooperativas, sindicatos, pequenos agricultores. Pastor Teobaldo - É grande a responsabilidade pública da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. Mas ela não é e nem tem partido político. No entanto, os seus membros são pessoas politizadas. Por causa do amor e paixão que recebem de Jesus Cristo, elas se envolvem com justiça, direitos humanos, política. Enfim, nas dimensões e nos lugares em que se discute e se decide sobre a vida humana. Assim, ajudam a construir um mundo melhor, com vida com boa qualidade para todas as pessoas e seu meio em que vivem. Diário - A Lei da Ficha-limpa, aprovada esse ano, representa um avanço para a política brasileira? Essa nova lei pode trazer uma mudança no perfil dos políticos do Brasil? Dom Milton - Na campanha ficha-limpa o povo brasileiro deu um bom exemplo de ajuda para a transformação da sociedade, não se deixando levar pela ingenuidade e omissão. Toca agora a cada eleitor escolher pessoas honestas, competentes, desprovidas de interesses pessoais, de grupos ou de setores privilegiados da sociedade, mas que promovam o bem comum e tenham compromisso social com os mais necessitados, independente de partidos. Os eleitores têm o direito de saber para votar conscientemente e a responsabilidade de não eleger quem desmereceu sua confiança. Cabe aqui registrar nossa indignação diante dos políticos cassados que insistem em manter suas candidaturas iludindo o povo, e nosso total repúdio aos que, mesmo cassados, continuam a exercer o poder e buscam a reeleição a qualquer preço. Pastor Teobaldo - A lei da ficha-limpa é muito importante. O fato de denúncias de desonestidade de alguns mandatários serem levadas ao público é sinal de que as coisas estão melhorando. Já não é mais tão simples esconder a corrupção. A participação da indignação popular cresce na busca por transparência e justiça. A lei da ficha-limpa é uma consequência do clamor de parte considerável da população brasileira. Ela deve ser, agora, aplicada adequadamente pelos órgãos responsáveis. Diário - Vocês orientam os fiéis a votarem nos candidatos que têm mais afinidade com as doutrinas da sua Igreja? Dom Milton - Nós, bispos, padres, religiosos, fiéis leigos da Igreja Católica, temos a responsabilidade de incentivar todas as pessoas com direito a votar para participarem das eleições para presidente, governador, senador e deputado federal e estadual. O voto não tem preço, tem consequência: é uma decisão da consciência e exercício da cidadania que se reflete na vida das pessoas, comunidades, bairros, cidade, campo, povos indígenas e comunidades tradicionais. Pastor Teobaldo - O candidato poderia, em tese, ser fiel de uma ou outra Igreja, ou não. A Igreja apoia as práticas políticas da luta por trabalho, moradia, água tratada, alimentação, saúde pública, segurança, lazer, terra, escola, coleta e tratamento de lixo, enfim, as coisas necessárias para a vida humana com dignidade. Quem tem afinidade com estes trabalhos sociais será valorizado. Mas o nosso apoio é sempre algo vigilante. Temos visto a entrada de muitos religiosos na política, em Mato Grosso principalmente pastores, ocupando cargo eletivo. Diário - É legítimo usar o púlpito da Igreja para fazer campanha? Dom Milton - Incentivamos os leigos católicos a entrarem na política partidária e se candidatarem aos cargos eletivos. Não é conveniente o padre católico, o bispo católico, se manifestar publicamente ser deste ou daquele partido: estará provocando divisão no interior da comunidade. Eles são pessoas provocadoras da comunhão! Pastor Teobaldo - A Igreja não é partido político. Ela não pode se resumir a um partido, por mais importante que os partidos sejam para a democracia. Mas o problema de usar o púlpito é o fato de na Igreja haver pessoas de diferentes partidos. O pluralismo na política é necessário para a saúde da democracia. Sem isso, não há regime democrático. No púlpito, a linguagem é bastante simbólica e se refere ao sagrado. Diante do sagrado, as pessoas silenciam. Elas ficam sem argumentos. Na política, não pode haver silêncio. Deve haver argumentação. Houve época na história em que Igreja e Estado eram uma coisa só. Foi tempo muito ruim, com escravidão, terrorismo e guerra santa. Diário - Se há um candidato na comunidade, é permitido que ele use o nome da Igreja para pedir votos? Dom Milton - Nenhum problema de o indivíduo candidato promover encontros nas comunidades católicas para se apresentar e pedir votos. Porém, nas celebrações litúrgicas, encontros de oração..., pois são momentos de comunhão e não se pode fazer uso do nome da Igreja para pedir votos! As comunidades costumam promover debates dos candidatos, e isso é ótimo! Pastor Teobaldo - Penso que pode pedir voto como cristão, cidadão da Igreja. Acho que deve, inclusive, fazer a diferença. Mas deve, também, lembrar que os eleitos trabalham para todo o povo. Ninguém deve, ou deveria, trabalhar somente para seu grupo, sua Igreja, porque a eleição é pública e o recurso que usa é, também, dinheiro público. É um atentado contra a democracia ser eleito pelos amigos para trabalhar somente para os amigos. Diário - A Igreja é vista com grande importância na sociedade por trazer valores que alicerçam a vida em comunidade de maneira harmoniosa e solidária. Na maioria das comunidades, a Igreja realiza trabalhos voluntários para melhoria de vida de crianças ou de pessoas com problemas de dependência química. Por essa importância social a Igreja deveria ter mais ajuda pública, em termos financeiros, para se manter? Dom Milton - A Arquidiocese de Cuiabá está sistematizando um setor de elaboração de projetos na dimensão social na área administrativa com esta finalidade. É dever dos governos municipal, estadual e federal destinar verbas para o social, para a educação... Dinheiro existe, sim! Mas é preciso que tudo se comprove com Projetos e Prestações de Conta. Pastor Teobaldo - Quem deve fazer este trabalho é o Estado. Para isso ele foi criado e para isso votamos e pagamentos impostos. A Igreja deve cuidar da vida de fé, enquanto o Estado cuida da vida temporal, material, humana. Mas, como o Estado tem fracassado, não dá conta, a sociedade se organiza, através do 3º setor, de igrejas, etc. Entendo que, se a Igreja fizer este trabalho social com eficiência e eficácia, ele pode fazer projetos e buscar recursos públicos, sendo transparente na prestação de contas pública. Mas a Igreja não pode usar os recursos públicos para se manter como Igreja. Dinheiro de impostos é dinheiro para ser usado em benefício social de todos. Diário - O que o senhor acha da discussão sobre o aborto? Levando em consideração que a maior parte dos brasileiros é religiosa, e que a maioria dessas religiões é contra, essa discussão é pertinente hoje na sociedade brasileira? Dom Milton - Um dos assuntos inegociáveis para nós, católicos, é a vida desde a concepção até a morte natural. O direito à vida não pode ser submetido ao arbítrio da maioria. Expressões como legalização do aborto não se tratam de simples política de saúde que favorecem clínicas contrárias à vida. Fala-se de despenalização do aborto ou antecipação do parto. A crua realidade, porém, não muda e o aborto voluntário é sempre a supressão direta da vida de um ser humano. Pastor Teobaldo - Discutir não significa concordar. Sempre é difícil falar sobre o tema, porque as pessoas acham que ao discutir estaria concordando. É evidente que o aborto deve ser questionado, porque envolve riscos para a saúde da gestante e é agressão à vida. Recebemos a tarefa de defender a vida, mesmo, ainda, estando no útero de sua mãe. O mandamento não mate se refere, também, ao aborto. Diário - O senhor, como representante da Igreja, é favor das pesquisas com células-tronco embrionárias? Dom Milton - Sou a favor de células-tronco adultas, por exemplo, do cordão umbilical! Sou contra a pesquisa em embrião, que significa vida. É inegociável interferir na vida embrionária! Pastor Teobaldo - A Igreja é a favor das pesquisas científicas. A ciência tem ajudado significativamente a melhorar a vida humana, em termos de qualidade e de longevidade. Em relação às pesquisas com células-tronco, a discussão não pode ser feita simplesmente a favor ou contra. Deve ser feita no contexto da problemática de toda a pesquisa genética e da falta de mecanismos para coibir abusos e do lugar de Deus da Criação. O mercado aliado à ciência (e vice-versa) arroga-se o direito de agir como um deus. A vida deve ser protegida dos abusos.