Primeira Página
Sábado, 22 de Dezembro de 2007, 14h:01
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ENTREVISTA
Otaviano, divisor do hoje e o amanhã
Deputado Otaviano Olavo Pivetta descarta candidatura a prefeito de Cuiabá, mas garante que disputará a presidência da Assembléia Legislativa
EDUARDO GOMES
Da Reportagem
BR-163, município de Diamantino, agosto de 1982. O caminhão pára e o motorista, de bolsos vazios, desce, pisa na estrada, olha em todas as direções e vê a vila cercada pela imensidão do cerrado à espera de braços para fazê-lo produzir. O vento bate forte, a poeira levanta e cobre a paisagem de vermelho. Aos poucos, tudo volta ao normal ao seu redor. Que coisa fantástica esse Mato Grosso! - pensou. Empolgado com o cenário da natureza emoldurado pelas pessoas em movimento, o peito queima e o coração lhe diz: o lugar é aqui! Esse foi o primeiro contato de Otaviano Olavo Pivetta com Lucas do Rio Verde. O possante que o levou de Caiçara, no Rio Grande do Sul, para o interior de Mato Grosso virou lavoura. Os primeiros passos foram difíceis, mas nunca o esmoreceram. Ao contrário, a cada dia conscientemente buscava mais força nos ensinamentos do pai, Tilídio, que era pequeno agricultor no Sul. E inconscientemente também se inspirava na paixão do velho pela política, afinal seo Tilídio foi prefeito pelo MDB ou Manda Brasa. Com um olho no campo e outro na vida pública, construiu um império que o situa entre os maiores produtores mundiais de grãos, o deixa entre os grandes exportadores brasileiros de carne suína, e se transformou em líder político: é deputado estadual pelo PDT e por duas vezes foi prefeito de Lucas do Rio Verde. Franco, objetivo e contestador critica a Mesa Diretora da Assembléia Legislativa, acusando-a de esconder a aplicação do duodécimo. Paralelamente a isso, anuncia que disputará a presidência da Assembléia e surpreendentemente transferiu o título de eleitor de Lucas para Cuiabá, onde também é domiciliado. Ninguém sabe o que acontecerá de agora em diante no cenário político mato-grossense. No entanto, todos concordam que independentemente do que haja, Otaviano será o divisor entre o ontem e o amanhã. DIÁRIO - A transferência do título para Cuiabá deixa clara sua disposição em se candidatar a prefeito? OTAVIANO Não! Transferi (o título) para facilitar o entendimento político dos meus companheiros em Lucas. DIÁRIO Como assim? OTAVIANO - Muitos insistiam para que fosse novamente candidato a prefeito, mas esse não é meu desejo. DIÁRIO - Isso significa que a prefeitura de Cuiabá está fora de seus planos... OTAVIANO - O homem público sempre tem que estar à disposição para enfrentar desafios. Mas Cuiabá já tem muitos e bons pretendentes. DIÁRIO Isso significa sua ausência do processo sucessório em Cuiabá? OTAVIANO Não! Pretendo conduzir bem meu partido e influenciar a sociedade onde vivo, pois não é justo que tantas famílias ainda não tenham água potável em casa, que a situação fundiária urbana continue sem definição, que a prefeitura seja tão ausente dos graves problemas que a condição de capital impõe à cidade. DIÁRIO Todo político sempre tem um projeto na manga da camisa... OTAVIANO É verdade, mas o meu não está escondido na manga (sorrindo). Meu projeto político é cumprir meu mandato e disputar a presidência da Assembléia. DIÁRIO - Chegar à presidência da Assembléia não é fácil, principalmente para deputado em primeiro mandato... OTAVIANO - Sei bem o quanto é difícil, mas alguém tem que enfrentar esse desafio. Nunca vi tanto consenso como aqui, a Mesa não pode continuar a ser unanimidade, isso é nocivo à sociedade e à democracia. DIÁRIO - Mesmo assim, é possível sonhar com a presidência da Assembléia? OTAVIANO - É preciso sonhar, sempre sonhar, sob pena de não se chegar a lugar nenhum. DIÁRIO - O que o deputado Otaviano Pivetta faria na presidência da Assembléia Legislativa? OTAVIANO - Já são 14 anos desse sistema. É preciso uma reforma administrativa e de conceito. Dar total publicidade aos números e atos, valorizar quem trabalha, eliminar os privilégios, melhorar as condições para os deputados poderem custear a atividade legislativa sem ter que pedir favor, e assim acabar com as concessões e constrangimentos. DIÁRIO - A proposta de orçamento da Assembléia para 2008 é de R$148.404.320 e não há segredo sobre isso... OTAVIANO - Não há segredo quanto ao montante estipulado pelo orçamento, mas falta clareza sobre as destinações. Esse valor equivale a R$ 6,2 milhões por deputado ao ano, ou quinhentos mil reais mensalmente. Esse número confunde a opinião pública. DIÁRIO Quanto a isso, qual sua conduta para dar transparência ao seu gabinete? OTAVIANO - No meu caso, publico através de meu site a destinação desses valores. O que precisa é a Mesa publicar também a destinação dos R$ 10,5 milhões por mês, ou dos R$ 126,7 milhões por ano, que são gastos na manutenção da Assembléia, pagamento de pessoal, etc., além do lotacionograma, como determina a legislação. No momento em que a Mesa Diretora fizer isso, acabam todas essas dúvidas que hoje existem sobre a gestão. DIÁRIO - O Tribunal de Contas do Estado (TCE) tem essas informações... OTAVIANO - A proposta do orçamento do TCE para o próximo ano é de quarenta reais para cada cidadão de Mato Grosso. Vamos comparar isso com uma auditoria independente e sem ingerência política para fiscalizar as contas do Judiciário, Executivo, legislativos, prefeituras municipais e demais instituições. Se assim fosse, com 30% desse orçamento teríamos um controle rígido das finanças públicas. DIÁRIO Isso é mexer em vespeiro, sem luvas... OTAVIANO -... Sei que para desmontar de imediato o gigantismo da viciada máquina estatal seria preciso um milagre, mas quando nada, em nome da razoabilidade, ao invés de se nomear conselheiros indicados por políticos o ideal seria a contratação de conselheiros auditores por meio de concurso público. DIÁRIO Ou seja, sua opinião é a de que o Estado gasta mal? OTAVIANO - Claro, o Estado é perdulário. Gasta muito mal. Estima-se que, para cada real arrecadado pelo Estado, mais de 30 centavos some pelo caminho, tragado pela corrupção, pela ineficiência e pelo empreguismo. Essas mazelas é que comiam a maior parte dos R$ 40 bilhões arrecadados anualmente pela CPMF. Com isso, quem perde mais são os cidadãos de menor salário, porque tudo que ganham investem nas compras de alimentos, roupas, remédios, tarifas de energia e água. E como não têm capacidade de poupança, acabam sendo as grandes vítimas da voracidade do Estado. DIÁRIO - Essa postura não é a do político tradicional, mas do empresário na política... OTAVIANO - (Sorrindo) É a postura do político três em um. Político todos nós somos. Já nascemos políticos, pois convivemos em sociedade e participamos das complexas relações entre as pessoas. Quando decidimos pela vida pública, nada nos impede de ser empresários. E uma terceira virtude que está muito em voga no Brasil e que tende a ser um movimento muito importante na construção de uma nova sociedade: é o empreendedorismo cívico, que une Estado e cidadão para produzir capital social. O cidadão está sendo chamado a participar, porque o Estado está mostrando que sozinho não consegue realizar tudo que precisa. DIÁRIO Recentemente, a Assembléia aprovou os nomes do ex-secretário de Fazenda Valdir Teis e do ex-deputado estadual Humberto Bosaipo para conselheiros. Qual foi seu papel nesse processo? OTAVIANO - A sessão que os aprovou virou uma festa. Foram estabelecidas as regras pelo presidente, sendo dois minutos para perguntas dos deputados e três para respostas dos indicados, mas nada disso aconteceu. Eu achei que não precisava participar. DIÁRIO - Em política, quem fala o que quer acaba ouvindo o que não quer... OTAVIANO - Graças a Deus, meu passado é limpo! DIÁRIO Mas pesam denúncias contra o senhor... OTAVIANO - Pesam sobre mim calúnias que vejo como o ônus de me dedicar à vida pública, mas que são injustiças. A região onde vivi e influenciei nos últimos 20 anos é a mais desenvolvida do Estado, tem um dos melhores IDHs e as melhores perspectivas. Lá, eu sou conhecido e me sinto muito prestigiado. DIÁRIO - Sempre tem alguém querendo associar seu nome ao escândalo Cooperlucas. OTAVIANO - (Esfregando o queixo) Fui vítima dessa injustiça. Houve calúnia, não existe nem uma denúncia formal, nunca fui intimado pela Justiça para falar sobre esse assunto e nunca fui diretor da Cooperlucas. Além disso, jamais opinei sobre seu funcionamento. Até hoje, se passaram 10 anos, e não sei o que fiz de errado. DIÁRIO Isso é o lado sujo da política? OTAVIANO Infelizmente em política tudo pode acontecer, principalmente com alguém que se propõe a enfrentar certos interesses, como sempre enfrentei. Inclusive, alguns caluniadores já estão sendo responsabilizados pela Justiça. DIÁRIO - Então, não tem nada a temer... OTAVIANO Nada! Absolutamente nada a temer. Minha história foi construída com trabalho e participação comunitária. A Cooperlucas sempre teve seus representantes legais e eu nunca fui um deles. Se fosse, teria sido mais uma empresa de sucesso, como as que dirigi, a Cooagril, Intercoop e a prefeitura de Lucas, entre outras. DIÁRIO - Fica alguma mágoa por isso? OTAVIANO Nenhuma! Deus tem sido muito generoso comigo. Deu-me além do que imaginava que um dia teria. Fica apenas a dor da injustiça. DIÁRIO - Como é sua relação com o governador Blairo Maggi? OTAVIANO - Na Assembléia, é institucional. Por um curto período, fui seu secretário de Desenvolvimento Rural. DIÁRIO E no cotidiano? OTAVIANO - No cotidiano, temos um bom e respeitoso relacionamento. O Blairo é bem melhor do que o governo que faz. DIÁRIO - Afinal, quem é Otaviano Pivetta? OTAVIANO - Sou um empreendedor cívico despojado de vaidade. Por dois mandatos consecutivos, fui prefeito de Lucas com austeridade e eficiência. Construímos um novo modelo de sociedade, nunca tive carro de gabinete nem motorista, nunca botei meu nome em placa das centenas de lindas obras que inauguramos, zero de compadrio, nepotismo e privilégios e motivador de boas pessoas. DIÁRIO - Qual seu futuro político? OTAVIANO - Só sei que vou cumprir meu primeiro e único mandato de deputado estadual fazendo o melhor que posso, pra ficar de bem com minha consciência e os eleitores confiaram em mim. DIÁRIO Primeiro e único mandato... OTAVIANO Exatamente isso! Primeiro e único mandato de deputado estadual. DIÁRIO E após cumprir esse mandato... OTAVIANO Não vamos nos prender muito no exercício da futurologia. Há muita coisa para ser feita no hoje, no agora! DIÁRIO - O que Otaviano Pivetta espera para 2008? OTAVIANO - Que nós, políticos, tenhamos mais sensibilidade; que os Poderes sejam menos corporativistas; e que o Estado seja mais servidor.