Segunda-feira, 7 de julho deste ano. Pela manhã sigo do Coxipó para o Diário. Na calçada da farmácia Unimed, à avenida Fernando Corrêa da Costa, vejo Vilceu Marchetti. Paro e me dirijo a ele, que me recebe com um distante aperto de mãos. Digo que quero ouvi-lo sobre Ararath, pois escrevo um livro que pretendo lançar em 2015 sobre os maiores rombos nos cofres públicos. Ele não gosta e franze a testa. Da minha parte não houve rombo, retruca insatisfeito. Insisto citando as anuências. Ele desarma o semblante, conversa calmo, mas objetivo. Disse-me que 2006 foi ano eleitoral e, na Sinfra, se viu obrigado a atender a muitos pedidos políticos, inclusive de deputados, para reformar essa ou aquela escola, construir isso e aquilo, enfim, a destinar para as emergências administrativas recursos que seriam para pagar as empreiteiras que trabalhavam no programa Estradeiro. Isso, segundo ele, contribuiu para um rombo no orçamento que pra não ter efeito dominó sobre as construtoras teria que ser contido por meio dos bancos. Pergunto se ele não acha que a anuência abre caminho à corrupção. A resposta é seca: Não! Tento insistir na pergunta e sua voz me atropela: Caminho pra corrupção, não; tenho certeza de que abre caminho pra banqueiro ganhar dinheiro e empresário ficar azedo com o governo. Faço a última pergunta: Quem sugeriu a anuência?. Ele abre meio sorriso: Isso sempre existiu. A Sinfra assume que deve, o empresário leva o papel ao banco e a Secretaria de Fazenda trata de arrecadar para gente pagar o que deve, sintetizou. Estendo a mão me despedindo e meu velho conhecido diz que está em paz e tem a consciência tranquila. À noite, pelos sites, tomo conhecimento de seu assassinato numa fazenda em Santo Antônio de Leverger, no entorno do Pantanal. Vilceu Francisco Marchetti morreu sem direito à defesa. Estava em paz. Descanse em paz. (EG)