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Sábado, 28 de Fevereiro de 2009, 13h:07

ENTREVISTA

Julier abre novo cenário à disputa 2010

Juiz da Primeira Vara Federal, Julier Sebastião da Silva não descarta uma eventual candidatura e já causa temor entre políticos carreiristas

NOELMA OLIVEIRA
Da Reportagem
Conversas sociais. Assim define o juiz federal Julier Sebastião da Silva, da Primeira Vara Federal, o assédio de políticos e lideranças para que ele assuma uma candidatura majoritária na eleição do próximo ano. Ele não desmente as conjecturas que o citam para uma eventual disputa, pelo contrário, sente-se envaidecido, mas usa sempre o argumento de que há ainda muito tempo para qualquer definição. Pelo fato de ser juiz, ao contrário de outras carreiras, Julier tem até abril para se filiar a um partido político e, consequentemente, deixar a magistratura, apesar de relembrar que a discussão é prematura neste momento. Por também não descartar uma eventual candidatura, conforme entrevista ao Diário, o magistrado também deixa o ‘mundo’ político no Estado em ebulição. Isso porque a possibilidade surge como barreira para aqueles que sonham em se perpetuar no poder. O suspense sobre a possível candidatura, até abril, torna as discussões sobre alianças e nomes mais complicada, numa verdadeira efervescência, porque será sempre um cenário a ser avaliado. O peso do nome de Julier surge principalmente por representar o novo e vir de uma carreira que tem respeito da sociedade e de um profissional sem máculas no currículo. Em nenhum momento da entrevista, concedida na sexta-feira, o magistrado deixou escapar o cargo que almeja. Nas entrelinhas, por dedução, a disputa fica por um mandato majoritário. Na verdade, o governo do Estado é a aposta de políticos que assediam Julier. Bem-humorado, mas quase monossilábico quando se tratava de perguntas eminentemente de uma possível candidatura, Julier não descarta nenhuma possibilidade. E tanto, que trata a situação como uma constatação. Conhecido em Mato Grosso como o homem responsável por desmontar o crime organizado e no âmbito nacional por decisões relacionadas à proteção do meio ambiente, entre outras, o magistrado surge no cenário político como o novo para enfrentar as oligarquias e os políticos de carreira de Mato Grosso. Diário de Cuiabá - A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou nesta quarta-feira de Cinzas a Campanha da Fraternidade, com o lema Fraternidade e Segurança Pública. O senhor acha que é o momento para discutir a situação da Segurança Pública no País? Julier Sebastião da Silva – Acho que é um tema nacional com suas peculiaridades e a sua importância dentro do contexto brasileiro, ou seja, não só no estado de Mato Grosso, mas no Brasil a violência tem sido um problema crônico para os governantes em geral, seja na esfera federal, estadual ou municipal. Todos os governantes e a população em particular têm tido problemas gravíssimos em relação à segurança pública, portanto acho que é, sem dúvida, importante que a Igreja Católica coloque este tema em discussão perante a sociedade brasileira e que encaminhe soluções que venham de alguma forma a atenuar este problema. Diário – O senhor está disposto a contribuir com este tema, com esta campanha? De que forma? Julier – O tema de Segurança Pública é relativo à cidadania. Então, todos aqueles que são cidadãos que têm preocupação de ver a sociedade, de melhorar a sociedade, tem a preocupação com relação à violência, com a criminalidade nos seus mais variados aspectos. Eu acho que todas as autoridades públicas, aí me incluo, têm essa preocupação e deve de certa forma aprofundar este debate ao longo do ano. Diário – Pelo menos nas últimas três eleições em Mato Grosso e às vésperas de uma nova eleição o seu nome volta a ser citado como um possível candidato. O que isso tem de verdade? Julier – Tem verdades e mentiras. É só constatação, eu acho. Não tenho conceito sobre isso. Diário – O senhor tem vontade de disputar um mandato eletivo? Julier – Essa discussão é prematura ainda. As pessoas estão discutindo eleições que vão acontecer no final do ano que vem já no início deste ano. Então, por hora é tudo prematuro. Diário – Por que o senhor acha prematuro? Julier – Porque tem muito tempo ainda (risos). Mal terminou o Carnaval. Eu acho que é um pouco prematuro ainda. Diário – O senhor não pode assumir que tem pretensão de assumir uma eventual candidatura porque prejudica a sua carreira na magistratura, se o senhor discute o assunto abertamente? Julier – Eu acho que é um tema de discussão importante para todo mundo e evidentemente a renovação dos quadros políticos do Estado. O mundo enfrenta um momento político diferenciado. A própria eleição do presidente Barack Obama nos Estados Unidos coloca num novo patamar no que se refere à representatividade política e assim por diante, mas de qualquer forma é uma eleição que só acontece em outubro do ano que vem e é cedo para ter certeza absoluta neste aspecto. Diário – Muito se discute na sociedade a busca pelo novo. E Mato Grosso já experimentou o novo com um empresário (no caso o governador Blairo Maggi, que está na segunda gestão). O fato de ser da magistratura também gera especulações para atuar na política? Até por ser de uma carreira que tem credibilidade junto ao público? Julier – Eu acho que por ser uma figura pública, conhecida no Estado, evidentemente que isso será objeto de análise por parte de todo o mundo. Não vejo nada de anormal, mas também não acho que agora seja momento de definições, nada disso. Acho que está muito longe ainda. Diário – O senhor se incomoda quando o seu nome é citado ou especulado para uma eventual candidatura? Julier – Não, acho que me deixa envaidecido no sentido de que é um reconhecimento público da minha atuação profissional, da credibilidade de que gozo perante a sociedade e neste aspecto me sinto bastante envaidecido pelo trabalho reconhecido não só de juiz, mas da instituição Justiça Federal à qual represento. Diário – O senhor já foi procurado por representantes de partidos políticos para se filiar? Ainda que indiretamente alguma sondagem? Julier – Não só tenho conversas sociais (risos), não, não com maiores consequências, socialmente as pessoas conversam, nada que vá além deste ciclo social. Diário – Além de ser uma representante da magistratura, da Justiça Federal, a respeitabilidade que o senhor tem aí fora e o bom trânsito que o senhor tem em Brasília também têm estimulado para o senhor ingressar na carreira política? Julier – Quando você tem uma atuação profissional pública, a sua atuação profissional não é limitada nas carreiras do Estado. Como juiz federal eu mexo com questões de cunhos nacionais e às vezes até com repercussão internacional, como na questão da reciprocidade para os americanos (ele foi o magistrado que decidiu também que os americanos fossem submetidos a um cadastro quando entrassem no Brasil). Então, acredito que seja de conhecimento, como diz, lá em Brasília. Diário – Diretamente, o senhor não foi procurado por nenhum partido para se filiar? Julier – Não! Acho que os partidos ainda não estão fazendo estes convites. Acho que estão todos conversando e, particularmente, nestes termos, não fui ainda convidado. Diário – Na carreira da magistratura praticamente, nesta instância, conseguiu atingir o ápice. O senhor tem interesse de tentar o cargo desembargador ou o senhor está satisfeito? Julier – Eu tenho 39 anos de idade, estou na magistratura há 14 anos, sou juiz federal desde 95 e já fui juiz na seção judiciária de Rondônia. Já estive no Tribunal Regional Federal, em Brasília, convocado, eu já fui juiz do Tribunal Regional Eleitoral, juiz-diretor do Fórum e tenho uma carreira construída ao longo destes 14 anos. Tenho idade pelo tempo de magistratura. Obviamente que tenho uma carreira que se não for ser desembargador federal fatalmente será por antiguidade, pela idade que tenho e por tempo de serviço. Mas isso é carreira, vai seguir seu rumo normal, natural. Diário – Mas pela carreira e pela pouca idade, dificulta chegar ao cargo de desembargador? Julier – Não. Sou juiz antigo. A antiguidade não é idade, é tempo na carreira. Diário – E por merecimento? Julier - A escolha é do Tribunal e do presidente por meio de lista tríplice é diferente. O acesso a desembargador é por merecimento e antiguidade. O fato de ter 14 anos então o prazo de antiguidade já está um pouquinho adiante em relação a outros colegas. Como diz, fatalmente, se eu ficar sentado mais um pouquinho vou ser desembargador por antiguidade. Diário – O senhor tem vontade de se mudar de Mato Grosso? Julier – Não, nenhuma. Eu nasci em Chapada, criado em Cuiabá, eu conheço, sou daqui e posso contribuir com o Estado. Não há por que me mudar. Diário - Caso ingresse na carreira política, a sua contribuição para o Estado já começa em 2011? Julier – Depende (risos), tem que passar primeiro pelo ano que vem ainda. Por isso estou dizendo que tem muito tempo ainda. Até lá, tem muita água para correr ainda. Diário – Para uma eventual candidatura, o senhor teria que abrir mão da magistratura. Isso implicaria em uma aposentadoria proporcional? Julier – Não, não tenho conhecimento disso, não. Seria por tempo de serviço normal, como todo trabalhador. Diário – Mas o senhor está avaliando estas situações? Julier – Não, não, ainda não estou pensando nisso, você ver o cenário. Mas é bom lembrar que tem muito tempo, tem 2009 inteirinho e mais 10 meses de 2010. É muito prematuro falar num espaço tão longo de tempo. Diário – Por que é temeroso trocar as carreiras? Julier – Não, porque isso não está na ordem do dia, se eventualmente fosse seguir este caminho só estaria na ordem do dia, em abril de 2010. Não tem por que se preocupar tão cedo, se tiver que ser decidido só em abril de 2010. São naturais as conversas, conversas sociais. Diário – O senhor acredita que tem o perfil para mudar a questão social para reduzir as diferenças sociais, o senhor tem este perfil? Julier – Já me reportei à eleição do presidente Obama, à questão do governo do presidente Lula em que há uma preocupação com os serviços públicos, com a cidadania, dando prioridade ao social, e foi uma questão colocada mundialmente. Acho que é uma questão que foi colocada mundialmente, nacionalmente deu certo e estará no Estado também. Diário – Mas o senhor acha que falta no Estado trabalhar mais a igualdade social? Julier – Eu acho que há uma demanda muito grande da população por serviços que são essenciais. Este tipo de igualdade social ou de melhores condições sociais, a questão da educação, saúde, saneamento básico e distribuição de renda, ou seja, a necessidade de ser ter programas sociais que atendam às demandas específicas da população, notadamente as mais carentes. É um ato que será observado em Mato Grosso ou em qualquer Estado ou mesmo nacionalmente. Ou seja, a preocupação é de se ter líderes que estejam vinculados às demandas sociais, superação de Justiça Federal e assim por diante. Diário – Independente de uma posição sua no futuro, com relação a uma eventual candidatura, o senhor acha que a política mato-grossense precisa de uma limpeza? Julier - Acho que os quadros de representatividade política precisam evoluir. No Estado há uma necessidade de se dar uma depurada nos representantes do povo e isso é uma demanda que está sendo colocada Brasil afora, uma necessidade de se observar a probidade no serviço público de se ter algum Estado agindo para atender ao interesse da maioria da população e não ao interesses de pequenos grupos, de interesses econômicos e políticos, mas vamos chamar um novo pacto de solidariedade. Diário – Depois que atuou no combate ao crime organizado isso tirou muito sua privacidade (o magistrado tem a ‘companhia’ de seguranças). O senhor acha que esta restrição vai perdurar até os últimos dias da sua vida? Julier – Eu acho que as autoridades públicas que convivem com esse tipo de problema – gerado a partir de sua atividade profissional – acaba por se adaptar à necessidade de segurança e isso passa a ser parte da sua vida normal como outra qualquer. Diário – Andar com seguranças, isso não o incomoda nem um pouco? Julier – Para mim não incomoda mais. É tão cotidiano! Diário – Não tira nem um pouco da sua privacidade e nem constrange os amigos? Julier – Não. Acho que os agentes da Polícia Federal que participam deste trabalho são muito qualificados, muito bem treinados e sem dúvida nenhuma têm a qualificação necessária para este tipo de tarefa. Para mim, é coisa normal e não há assombro nisso, não!

Edição EDIÇÃO 16967




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